Os Fundadores da "Soberania do Povo"
Em mil oitocentos e setenta e nove
Um grande jornal em Águeda foi fundado
Foi o jornal "Soberania do Povo"
Que a um de Janeiro foi inaugurado
Seus fundadores, Homens de grande valia
Eram os Homens mais importantes de então
Que a uma causa nobre se entregaram
Defendendo Águeda de alma e coração
Uma dúzia de Homens fizeram História
Neste jornal que veio para ficar
Sendo hoje o semanário mais antigo
Que se publica no nosso Portugal
Em mil oitocentos e quarenta e quatro
Nasce Albano de Melo, grande Aguedense
Formou-se em direito aos vinte e oito anos
E à causa de Águeda foi muito persistente
Foi grande animador da Soberania
E foi Governador Civil de Aveiro
Foi presidente da Câmara Municipal
E mercê do seu talento, Conselheiro
Governador Civil de Castelo Branco
Foi um dos grandes cargos que ocupou
Foi Deputado a varias Legislaturas
Em que por Águeda Ele sempre pugnou
Na pasta do Ministério da Justiça
Foi sempre um distintíssimo Director
Foi ainda vereador da Câmara de Águeda
E da Junta Geral seu Procurador
Um dia, Albano de Melo no Parlamento
Falando de Águeda com uma paixão tal
Levantou a sua voz vibrante e disse:
Águeda é a terra mais linda de Portugal
Era bacharel, formado em direito
O Joaquim de Melo Ribeiro Pinto
Foi fundador da "Soberania do Povo"
E era um Homem bem formado e distinto
Doutor Manuel Rodrigues da Silva Pinto
Na escola médica do Porto formado
Acabou por ser professor da mesma
Onde foi um mestre muito destacado
Em mil oitocentos e setenta e quatro
Consegue da mesma escola ser lente dela
Revelando muito talento e saber
Esse Homem, irmão de Adolfo Portela
Numa audiência em pleno tribunal
Acabou com duvidas e falsas suspeitas
Tendo uma intervenção muito enérgica
No julgamento ao Doutor Urbino Freitas
Com grande amor à causa da sua terra
Eduardo de Melo Ribeiro Pinto
Foi fundador da Soberania do Povo
E um funcionário Público distinto
Padre José de Melo Ribeiro Pinto
Também fez parte da sua fundação
Foi Pároco freguesia de Águeda
Que serviu com tanto amor e devoção
Foi ainda Luiz de Melo Ribeiro
Funcionário Público de profissão
Que ajudou a nascer a "Soberania"
O maior jornal da nossa região
Era bacharel formado em Teologia
E da "Soberania"foi seu fundador
O Arcebispo Manuel Baptista da Cunha
Que da Sé de Braga foi bom servidor
Este Homem importante de Paradela
Num acto tão sagrado e tão solene
Em mil oitocentos e oitenta e oito
Foi sagrado Arcebispo de Mitilene
No ano de mil novecentos e três
Na terra de Vila do Conde morreu
Para onde foi desterrado dois anos
Por motivos políticos em que se envolveu
A pastoral dos Prelados Portugueses
Que o distinto Arcebispo assinou
Deu origem a este triste desterro
Que o governo vigente decretou
Em mil oitocentos e vinte e dois
José Joaquim da Silva Pinho nasceu
Formou-se em direito, foi grande político
E aos doze fundadores ele pertenceu
Escreveu "As Meninas Mascarenhas"
Esteve na vereação Municipal
Foi ainda do Distrito de Aveiro
Procurador digno da Junta Geral
Morreu em mil oitocentos e setenta e nove
E Jafafe a sua terra natal
E como apaixonado progressista
Manteve até à morte o seu ideal
Também o Doutor Mateus Pereira Pinto
Que da Soberania foi seu fundador
Era Pai do Doutor António Breda
Que do Hospital foi grande Operador
Pertencia à linha progressista
Era natural de Barrô, sua terra
Morreu em mil novecentos e onze
E foi um exímio escritor dessa Era
Esteve na fundação da Soberania
O proprietário do Solar da Espertina
José António de Oliveira Baldaia
Que foi Homem de uma linhagem fina
O farmacêutico Manuel Maria Ala
Que em Águeda a primeira farmácia fundou
Foi Vereador da Câmara Municipal
E em farmácia se notabilizou
O Doutor António Rodrigues Pinto
Que em direito era Bacharelado
Foi também fundador da Soberania
E como outros, esteve sempre a seu lado
São nomes imortais da Soberania
Que com o correr dos anos vão ficando
E como tantos Homens de valor
"Se vão da lei da morte libertando"
Águeda 1995
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
terça-feira, 5 de julho de 2011
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Águeda que eu vivi
Águeda como é tão bela e preciosa
Como é tão linda a origem de onde vem
Casal do Lousato foi seu embrião
E Mártir Santa Eulália, sua mãe
Como eras tão atraente ó minha terra
Tinas um aspecto encantador e lindo
Pois nada precisavas para ser bela
Das belezas naturais usufruindo
Por isso um poeta ao contemplar-te
Apaixonado "Águeda a Linda" te chamou
Quando ausente te levou no coração
E não se esqueceu de ti, sempre te amou
Não se vislumbram agora os teus encantos
Desses tempos que eras linda e bela
Tão linda como Ruela te escreveu
Tão linda como te cantou Portela
Tinhas a pureza da serra, do campo
E gente ao calor, ao pó, nas sachadelas
Tinhas milho azevém e os pampilhos
O cantar das rãs, dos grilos e das relas
Nos açudes erva doce e rosmaninho
Cheirava a alecrim à porta dos casais
Pelo monte a flor da gesta, da carqueja
E papoilas misturadas nos trigais
Tinhas na serra o lindo nascer do sol
Que dava luz e calor ao rico e ao +pobre
E o pôr do sol a mergulhar no mar
Quando o crepúsculo da noite o encobre
Tinhas rio com água pura e corrente
Onde havia peixe e atletas a correr
A verdura dos choupos e salgueiros
E o cantar do melro ao amanhecer
E quando a noite avançava nas aldeias
E as suas gentes entravam em sossego
Ouvia-se o cantar da coruja, do mocho
E o piar estridente do morcego
Tinhas as noras com o seu chiar dolente
Que rolavam sempre de noite e de dia
Para abastecerem água para as regas
Cada um na hora que lhe pertencia
Viam-se pelo campo os estanca rios
Juntinhos ao rio para a água tirar
Eram movimentados por uma vaca
De olhos vendados à roda sem parar
Minha terra tinha tanta coisa linda
Eu bem me recordo, era ainda novo
Não havia muito pão, devido à guerra
Mas vivia muito mais feliz o povo
Onde estão o coreto, o lago, os gansos
A linda casa dos Paços do Concelho
Onde está a fonte daquela água pura
Juntinho mesmo ao município velho
Tanta gente ali matou a sede
Nas duas bicas de água pura e corrente
Bebeu lá o Zé Tendeiro em certos dias
Mesmo com o Candeeiro ali de frente
Ela passou para a praça do Município
E foi transportada com tal jeitinho
Que os leões que suportavam a pia
Fugiram e perderam-se no caminho
A pobre daquela fonte centenária
É muito triste o fado que ela tem
Desmembrada, sussurra, só faz barulho
Sua água não mata a sede a ninguém
Onde está o fontanário da Praça Velha
Os barquinhos do André a navegar
O ginásio onde estava a Ti Custódia
E a Voz do Botaréu sempre a tocar
Era o Tenente Flores a alegrar a terra
Com seu estúdio por ele ali montado
Onde transmitia sempre boa música
Ou algum disco para alguém dedicado
Do Jardim Velho até ao Botaréu
Para ouvirem os discos dedicados
Nesse lugar que era muito concorrido
Passeavam os casais dos namorados
Gente muito ilustre de Águeda ia à Custódia
Procurando o bom café que ela tinha
Até mesmo o Padre Óscar pela calada
Ia ali para beber sua ginjinha
Jogava-se lá bilhar e Ping-pong
Por dez tostões apenas cada jogada
Também o dominó, as damas, as cartas
E quantas vezes até de madrugada
Como era lindo ouvir as serenatas
Quando a lua ia alta, à luz do luar
E a voz cristalina do Alcino
Encantava todos com seu cantar
Há um fado que ele cantava tão bonito
E que sempre cantou ao longo da vida
Tinha uma letra de autor desconhecido
Era conhecida de Guitarra Querida
Assim Alcino se habituou a cantar o fado
E hoje com uma voz sem igual
É considerado nos meios artísticos
Como um dos melhores cantores de Portugal
A cúpula do céu, a lua e as estrelas
Eram o auditório para os cantores
Sua voz entoava suavemente
Quando a noite era calma e sem rumores
Cantou o Bibi e o Rui Vitaliano
Jorge Preto com sua voz de encantar
Acompanhado às vezes com instrumentos
Que davam mais vida ao seu cantar
Quando se ouvia o Hernâni Cabaço
Dando à noite um timbre invulgar
As meninas vinham todas às janelas
Só com o prazer de o ouvir cantar
Entoava lindos fados de Coimbra
Apreciados aqui no nosso meio
Cantava muito bem "Olhos Castanhos"
E a linda canção "Marco do Correio"
Como era consolador ouvir o Dário Vidal
Silveira Martins com o seu fado dolente
O Adolfo e o amigo Carvalho
O Nobre, Martins e António Doente
Era um rouxinol o amigo Valantas
Sempre com sua viola afinada
A cantar lindas canções mexicanas
Toda a noite até romper a madrugada
Quando a sua voz à noite se ouvia
À janela das garotas a cantar
Deliciáva-as com uma linda canção
Que eu quero agora aqui recordar
"Acorda se estás dormindo
Nesse sono enlevado
Acorda, vem à janela
Vem ouvir cantar o fado"
Cantava um fado o Silveira Martins
Que ele diz agora ter esquecido
Mas que eu quero recordar porque o ouvi
E que era o fado dele preferido
"Você não sei bem porquê
mas gosto de vê-la
você não sei bem porquê
não posso esquecê-la
Você finge que não vê
e que não dá por tal
talvez um dia você
venha a ter tormento igual
Você que desgraça
por mais que lhe faça
não gosta de mim
você bem podia
ser minha alegria
no entanto é assim
Você castiga
por mais que lhe diga
não mostra saber
você sempre esquiva
vaidosa e altiva
você não me quer"
Cantava o Gomes o fado de Lisboa
E o Zé Bala o fado de Coimbra
O nosso querido Alípio também se ouvia
Com sua voz encantadora que à noite timbra
Cantou César Maceta e Néu Funa
Cantava bem o Franquelim da Borralha
O Zé Pedro com a sua viola
A cantar os velhos fados p’rá maralha
Quando o Pedro cantava à namorada
Ou por ela muito apaixonado fica
Cantava com uma voz sentimental
"Ouve-me, meu amor, Virita, Virita"
O Alípio está ausente no Brasil
Traz sempre boa mensagem prá gente
Gosta d’Águeda e quer sempre falar dela
Porque nasceu cá, amor por ela sente
José Júlio Ribeiro também cantava
E a sua voz era muito apreciada
Como o doutor Martins com a sua viola
A cantar fados de Coimbra e balada
Doutor Madeira, exímio cantor
O fado de Coimbra é sua paixão
Cantou serenatas ainda estudante
Com a companheira guitarra na mão
Quem teve o privilégio de ouvir o Rui Vulga
A sua voz linda não havia igual
Como o Melo e o amigo João Saldanha
E lá pela Arrancada o Zé Vidal
Tinha voz inesquecível o Salgado
Ela cantava com muita categoria
Pessoas de idade vinham à janela
Quando pela noite a voz dele se ouvia
Também cantou o fado de Coimbra
O saudoso estudante Alfredo Costa
Como o Maximiano, o velho Escola
A cantar canções que tanto gosta
A minha terra tinha um ar tão diferente
Quando a Páscoa vinha era uma alegria
Águeda tinha um ar mais perfumado
Quando à semana Santa se assistia
Oh, como em criança tudo era diferente
De calções e bibe, as meninas com laços
Pela Páscoa com sentido nas amêndoas
De saco ao pescoço a pedir para os Passos
Essas Páscoas, ó Águeda eu não esqueço
O teu seio exalava tal cheirinho
As tuas ruas cobertas de verdura
Impregnadas de cheiro a rosmaninho
A Semana Santa, quem se lembra
Das cerimónias, das grandes pregações
Em que o povo aparecia todo em massa
Acompanhando as diversas procissões
De quarta feira até Domingo de Páscoa
O povo com respeito e devoção
Ia ao adro que estava sempre cheio
Para ouvir do senhor padre o seu sermão
Começava em quarta feira de Trevas
E todo o rapazio em geral
Aparecia nesse dia com as tréculas
E fazia um, barulho infernal
O ruído que faziam na igreja
Tinha sempre um período limitado
Mas se algum malandreco excedia
Deixava o senhor padre arreliado
Desde que começava a Semana Santa
Para iluminar a todo o instante
Até ao Domingo da Ressurreição
Estava a arder um círio gigante
Quando passava o senhor morto
Todo o povo com respeito e devoção
Vinha ouvir cantar a Verónica
No percurso de tão triste procissão
Belas vozes cantaram o Vos Omnes
Nas paragens ao longo da procissão
Cantou a Canquiça, a Rosa do Gravanço
Com linda voz como Odete do Sardão
Ensaiou muitos anos o Vos Omnes
Godofredo Duarte que foi grande regente
Homem de grande talento musical
Que bonitas obras deixou à gente
Ofereceu uma música da barcarola
Que guardo ainda com muito carinho
Com ela ganhei um prémio em Cesar
Com o rancho "Os Malmequeres de Campinho"
Ensinou a Glória dos padres-nossos
Também ensaiou o padre Rachão
O nosso saudoso padre Amílcar
Que Águeda chorou sua separação
Pelos Ramos era lindo ver no adro
Altas cruzes que eram bem ornamentadas
Revestidas a alecrim e muitos lírios
E pela rapaziada transportadas
Grupos de moços vinham a pé
Deslocando-se de toda a Freguesia
Com gigantes e pesadas cruzes
Que o senhor padre na igreja benzia
Todos procuravam trazer a melhor
Cruzes grandes, coisa que se veja
De tal maneira que a maior parte delas
Não as conseguiam meter na igreja
Com aprumo, muito respeito e fé
Já sagradas para o cristão verdadeiro
Depois de benzidas vinham em procissão
E circundavam o tão velho cruzeiro
E na crença deste povo tão cristão
O alecrim benzido era guardado
Para quando viesse a trovoada
Por entre duas telhas ser queimado
O seu cheirinho chegava ao céu
Como o incenso que tão bem cheira
Para que Deus desviasse a trovoada
Para onde não houvesse eira nem beira
Paredes apresentava a maior cruz
Que eram por muitos moços transportada
O seu peso ultrapassava os cem quilos
E era com quatro cordas segurada
Alguns rapazes que me lembre
que levaram a cruz no último ano
Foram Augusto Jeitosinho, Néu Charra
António Salazar, Joel e Herculano
Fizeram ainda parte Eugénio Preto
António Chula e o Nito Estica
E a cruz que seguia sempre deitada
No regresso encoastda à capela fica
E depois de estar ali durante meses
Onde o povo ia tirando o alecrim
Foi pr’á eira do senhor Dionísio Chula
Sendo ali que veio a ter seu fim
Nos anos atrás havia um outro grupo
Levaram uma cruz deitada com jeitinho
Tunha um peso à volta de duzentos quilos
Sendo o principal o Augusto Carapinho
Foram grandiosas as festas da paz
Feitas em honra de S. Sebastião
Com um programa de festa nunca visto
As melhores a este santo até então
Era obra de arte o Arco do Triunfo
Por onde veio a passar a procissão
Exalando um nevoeiro perfumado
Do doutor Adolfo imaginação
Teve um programa rico e variado
Foram as festas mais lindas que eu vi
Com boa iluminação e fogo preso
E a voz encantadora do Bibi
As festas de S. Pedro em Assequins
Estão bem patentes na minha memória
Donde vieram a nascer dois ranchos
Que honraram Águeda e fizeram história
Como era lindo o cortejo das colheitas
Que foi feito a favor do Hospital
Com muitos ranchos e carros alegóricos
Levando prendas e dinheiro em geral
Vinham ranchos de todos os lugares
Vestidos com lindas roupas a rigor
Interpretando canções maravilhosas
Ao som da pandeireta, do tambor
Num cortejo que me lembre, que beleza
Gente de Assequins com alegria sua
Cantava "Rancho d’Além", "Gota Espanhola"
E cantava o Cabo a "Marcha da Rua"
A vinte e dois do dez de qyuarenta e nove
Na escola dos Sargentos, em plena praça
Assistiu-se ao "Auto da Raínha Santa"
De Serafim Soares da Graça
Um cortejo ao sabor do século catorze
Com trombetas, pagens e escudeiros
Dezenas de cavaleiros com estandartes
E a iluminar as ruas, os archeiros
O grande cortejo saia do Joinal
Depois de cair grandes chuvadas
E as ruas sem a luz municipal
Ficavam com archotes iluminadas
Foi um espectáculo maravilhoso
Que foi interpretado por bons actores
Sobresaíndo o papel maravilhoso
Representado aliu por Orquídea Flores
Eram deste grupom ainda actores
José Silva, José Breda, Manuel Guerra
Fernando Brinco da Costa, Jorge Vargas
Todos eles grandes valores da nossa terra
Também Luciana Guerra, Alfredo Costa
Carlos Veiga, Eduardo Pinho
Gente que fez parte deste grande elenco
Que seguiram do cortejo seu caminho
Este lindo e memorável espectáculo
Teve em Marques Gomes figura principal
Com a Escola Central de Sargentos
Hospital e Câmara Municipal
Que bonita a festa do Souto do Rio
Toda a gente ia ali merendar
Havendo uma ponte feita em madeira
Para pr’á outra margem atravessar
Seguiam maltas a pé ou de bateira
Outros utilizavam os mercantéis
Sem se esquecerem do barril da moringa
E do açafate com os seus farnéis
Com cestos num pau pendurados às costas
Levando cada um o que quer e gosta
Lá seguiam penduradas as condessas
Mas sempre com um pano de linho à mostra
Festas houve a favor da sopa dos pobres
Organismo que o padre Amílcar fundou
Ajudado por um grupo de senhoras
Que nesta tarefa tanto o ajudou
Algumas destas generosas senhoras
Que trabalhavam sempre com muito afinco
Foram Gina Candeeiro, Rosa Pinho
Maria Augusta e Ernestina Brinco
Foi também D. Irene Marques Gomes
Maria Corga e Maria Ester Camelo
Que acompanhavam sempre esta jornada
Com amor aos pobres e bastante zelo
Alguns pobres iam mesmo *a Venda Nova
Onde tinham sopa, pão e às vezes vinho
Mas os que não podiam sair de casa
Era-lhes entregue com o mesmo carinho
Pelo Natal e Páscoa havia festa
Até comiam rancho melhorado
Arroz doce, aletria, boas filhós
Sendo tudo por pessoas de bem dado
Generosa com pena dos pobrezinhos
No hospital havia uma santa senhora
Que dava uma malga de sopa e bom pão
Era a saudosa Irmã Superiora
Ela praticava o bem e não negava
A quem quer que fosse um bocado de pão
Até mesmo agasalho fornecia
Era assim seu prestimoso coração
Acima da ponte a uns duzentos metros
Lá estava a piscina do Algés
Onde toda a mocidade ia nadar
E os mais velhos iam molhar os pés
Ao meio da tarde apareciam miúdos
Para praticar ali naquela escola
Onde aprendiam bem a nadar no rio
Com as boas lições da Lola
Durante trinta anos ensinou
Centenas de crianças a nadar
Fazendo sempre um trabalho prestimoso,
Com entusiasmo sem nada ganhar
Entusiasta era grande nadadora
Praticava natação de muito nova
E chegou mesmo a ganhar uma estafeta
Nadando de costas nessa mesma prova
Seu marido foi um grande nadador
Alinhando em alta competição
Dando luta ao afamado Petroni
Ao Mário Simas e até ao Trovão
Formaram-se ali bons nadadores
Que nos deixaram boas recordações
Como João Mano, Bério, Manué
E outros que até foram campeões
Nesse tempo foram grandes nadadores
Alcançando até o lugar primeiro
Bernardino Saraiva, José Rabeca, Bério
Jorge Cera, Dinis e José Júlio Ribeiro
Grande nadador foi também o foguete
E o António da Graça, o Salazar
Os dois Gastões e até o Gastão Velho
E outros mais que eu quero recordar
Dinis de Recardães, Sílvio Tanoeiro
Irmãos Martins, Carlos Salgado, André
Fernando Moreira, João Fuso, João Brinco
Feliciano Lima e irmão, José
Fui muitas vezes para o rio, tirava a roupa
E andava muito tempo a nadar
A dar tempo que minha a lavasse
Para ser vestida depois de secar
Que prazer apanhar canas de foguetes
Para aproveitar os fios dos canudos
Que serviam para segurar estrelas
Feitas por nós quando éramos miúdos
Papagaios de cana e de papel
Com sua enorme cauda a esvoaçar
Era ver quem conseguia a maior
Para mais horas poderem flutuar
Jogávamos ao calhamontra, à bilharda
Às escondidas, às malhas, ao botão
Ao berlinde, santa matuta, gazolo
À semana, pitorra, côncra, pião
Nos combros pela escuridão da noite
Como era bonito ver os luze-cus
Esses lindos insectos voadores
Que nos irradiavam raios de luz
Na mira de conseguir uma moeda
Segundo a crença que já vinha dos pais
Eram metidos debaixo de uma malga
Para lá deixarem um tostão a mais
Geralmente procurávamos nos vimeiros
As interessantes e frágeis joaninhas
Era um prazer apanhar estes insectos
Por serem de cor vermelha, às pintinhas
Apanhávamos estes lindos insectos
Eram colocados na palma da mão
E então dizíamos a lenga-lenga
Que há longos anos vinha de tradição
"Joaninha voa, voa
Que teu pai está em Lisboa
Traz um saco de farinha
Para dar à joaninha"
Era um prazer apanharmos as carochas
Que trazíamos com um fio penduradas
Ou atacar com calhaus as sardaniscas
Quando estavam nas pedras recostadas
Quase todos os rapazes tinham fisga
Para andarem à caça da passarada
E alguns tinham uma tal pontaria
Que matavam os passarinhos à calhoada
Que bons os morangos silvestres da Corga
Quando em tempos, por ali tantos havia
Ou as pequeninas cucas dos carvalhos
Que a rapaziada às vezes comia
Quantas vezes andávamos pelos combros
Procurando as amoras nos silvados
Ou medronhos vermelhinhos pelo monte
Fruto lindo que era tão apreciado
Para apanhar pintassilgos e pintarroxos
Aos domingos p'rós lados do ribeirinho
Andava por lá tanta rapaziada
Por haver por ali tanto passarinho
Utilizavam pontas de piassaba
E revestidas de visgo, muito aderente
Que colavam as asas das avezinhas
Ficando então ao alcance da gente
Andava por lá sempre o Raúl, Ribeiro
E o Zé Rachinhas aparecia às vezes
Como o marinheiro, António Moreira
O Armando Chibeiro e o Lanheses
Aparecia o ti Alfredo Tamanqueiro
Como Moita e o Elói que era vizinho
Adorava apanhar estas avezinhas
Que depois tratava com muito carinho
Ele tinha na loja tanta passarada
Que davam à rua vida e alegria
Cantavam canários e pintassilgos
E os lindos melros ao longo do dia
Havia um grupo lá pelo Botaréu
Que jogava à bola, às vezes de trapos
Era confeccionada com uma meia
Que só era cheia apenas de farrapos
Jogava Manuel de Oliveira, o Moina
José Júlio Ribeiro, Feliciano
Manuel Alegre, José Lima e Fuso
Carlos Leite, João Júlio e Mano
Às vezes jogava o Perna-Marota
O Alfredo Lima, o Firmino Gaspar
E quando apanhavam bola de borracha
Era caso mesmo para festejar
A Rua de Baixo tinha agitação
Com a oficina do Chico Marceneiro
Uma movimentada tinturaria
E o Daniel que era sapateiro
Também tinha a oficina do Canário
Onde um dia enorme incêndio deflagrou
Que deu origem a criar os Bombeiros
Que o Neca Carneiro com outros fundou
Tiveram lá início as Caves Monte Alto
Onde o Canal sete se encontra instalado
Passando depois para Além-da-Ponte
Onde muito vinho foi engarrafado
Transformaram-se as caves num lindo bar
Que apresentava sempre vinho do mais fino
E café que alcançara tanta fama
E que lhe deu o nome Bar Cimbalino
Foi lá que viveu o amigo Moina
E o grande poeta d' Águeda nasceu
Foi lá que tocou viola o Américo
E onde Celestino Neto viveu
Foi lá que o forno do Abel da Benta
Mesmo aos domingos tantos leitões assou
Que ele próprio vendia na praça velha
Onde tantos bons clientes aviou
Havia nesta rua a pensão Barata
Que teve sempre boa clientela
Era frequentada por muitos Sargentos
Que a preferiam e gostavam dela
A rua da Cancela tem grande história
Junto de um casa em que eu próprio vivi
Fazia lá bons doces a Libânia Loira
Que tantas vezes me dava e eu comi
A Fábrica de Produtos Químicos Pomba
Era empresa de pequena dimensão
Fabricava graxa, tintas, vernizes
Diluente, lacre cola e zarcão
Era o Joaquim Matias o seu dono
Com quem eu próprio convivi muita vez
E que mais tarde, na rua Lourenço Peixinho
Vendia lá calçado, Campeão Português
Viveu lá o grade artista Pechilo
Que lindos fogões de lenha fabricava
Até mesmo a ti Iria do quiosque
Que na sua casa frente a mim morava
Na casa do senhor Hélio Sucena
Que foram meus vizinhos e meus amigos
Quando no tempo das guerras liberais
Ali foram alguns soldados socorridos
Depois de ser demolido o hospital velho
À passagem da estrada número um
Era ali o hospital alternativo
Por não haver cá na vila mais nenhum
Foi feito um onde está o Sotto Mayor
E que até não chegou a laborar
Por motivo de condições higiénicas
Que o impediram de funcionar
Nesta rua da Cancela onde eu morei
Num compartimento do Manuel Simões
E à noite para ver televisão
Pagando de cada vez só dez tostões
Já pelas altas horas da madrugada
Quando a luz do luar nesta rua espelha
Funcionava ali um pequeno bar
A que chamavam a lanterna vermelha
Nesse bar que estava limpo e esmerado
Era ali que muito amigo se encontrava
Já depois de ter fechado os cafés
O Manuel Simões a todos aviava
Tantas noites se mantinham em convívio
Saindo a horas próximas do trabalho
Por terem ali petiscos a sair
E caldo Knorr temperado com sal-de-alho
Aparecia lá o Maximiano
O Adolfo, o Sousa e até o Bibi
Álvaro Breda, Nobre, Hernâni Cabaço
O Vidal e o Martins todo pipi
Ainda o Dário, Raúl Neves, João Breda
Arreganha, Manuel Correia, Sucena
Noronha, Guilherme, doutor José Maria
Girão e outros amantes da verbena
Rua de lavadeiras e prostitutas
Em tempos idos quando ali vivi
Eram lavadeiras a Pega e a Eva
Prostitutas a Magna e a Matari
As prostitutas eram mulheres de bem
Era um recurso para ganhar a vida
A guerra era causa de não haver pão
Miséria que ainda não foi esquecida
Quando a Matari entrou na reforma
Pedia esmola aos seus velhos clientes
Era geralmente de frente ao Camossa
Nem que estivessem as mulheres presentes
Esta linda rua saudades me deixa
Os meus tempos de infância me deixam pena
Quando convivi com grandes amigos
Foram eles José e Paulo Sucena
O largo da Venda Nova, que lindo
Era um encanto nesse tempo ido
Com a fonte tão bela com uma bomba
Que fora feita só de ferro fundido
Onde está a Câmara Municipal
Esteve o Campo de S. Sebastião
Onde o Recreio tantas vezes jogou
E o ti Firmino semeou o grão
O ti Firmino do Vale, meu avô
Muitos anos aquela terra amanhou
Entregou-a para o campo do Recreio
Onde um caminho de glória começou
Nas escarpeladas feitas em Setembro
Aparecia a malta para ajudar
Na mira de apanhar a espiga vermelha
Para as raparigas poderem beijar
Muitas vezes os rapazes de Paredes
Atravessavam de bateira o rio
Para ir escarpelar a Recardães
Em noites de orvalho e muito frio
De regresso os mais malandros e mais fortes
Quer fosse ao domingo quer fosse à semana
Iam de bateira fazer um assalto
Ao pomar da D. Maria Joana
Tinha laranjas de boa qualidade
E eram tantas que até vendia
Mas havia uma malta de Paredes
Que a maior parte da produção comia
http://www.eq.uc.pt/%7Ejorge/BRAZ/aguedavivi.html
Como é tão linda a origem de onde vem
Casal do Lousato foi seu embrião
E Mártir Santa Eulália, sua mãe
Como eras tão atraente ó minha terra
Tinas um aspecto encantador e lindo
Pois nada precisavas para ser bela
Das belezas naturais usufruindo
Por isso um poeta ao contemplar-te
Apaixonado "Águeda a Linda" te chamou
Quando ausente te levou no coração
E não se esqueceu de ti, sempre te amou
Não se vislumbram agora os teus encantos
Desses tempos que eras linda e bela
Tão linda como Ruela te escreveu
Tão linda como te cantou Portela
Tinhas a pureza da serra, do campo
E gente ao calor, ao pó, nas sachadelas
Tinhas milho azevém e os pampilhos
O cantar das rãs, dos grilos e das relas
Nos açudes erva doce e rosmaninho
Cheirava a alecrim à porta dos casais
Pelo monte a flor da gesta, da carqueja
E papoilas misturadas nos trigais
Tinhas na serra o lindo nascer do sol
Que dava luz e calor ao rico e ao +pobre
E o pôr do sol a mergulhar no mar
Quando o crepúsculo da noite o encobre
Tinhas rio com água pura e corrente
Onde havia peixe e atletas a correr
A verdura dos choupos e salgueiros
E o cantar do melro ao amanhecer
E quando a noite avançava nas aldeias
E as suas gentes entravam em sossego
Ouvia-se o cantar da coruja, do mocho
E o piar estridente do morcego
Tinhas as noras com o seu chiar dolente
Que rolavam sempre de noite e de dia
Para abastecerem água para as regas
Cada um na hora que lhe pertencia
Viam-se pelo campo os estanca rios
Juntinhos ao rio para a água tirar
Eram movimentados por uma vaca
De olhos vendados à roda sem parar
Minha terra tinha tanta coisa linda
Eu bem me recordo, era ainda novo
Não havia muito pão, devido à guerra
Mas vivia muito mais feliz o povo
Onde estão o coreto, o lago, os gansos
A linda casa dos Paços do Concelho
Onde está a fonte daquela água pura
Juntinho mesmo ao município velho
Tanta gente ali matou a sede
Nas duas bicas de água pura e corrente
Bebeu lá o Zé Tendeiro em certos dias
Mesmo com o Candeeiro ali de frente
Ela passou para a praça do Município
E foi transportada com tal jeitinho
Que os leões que suportavam a pia
Fugiram e perderam-se no caminho
A pobre daquela fonte centenária
É muito triste o fado que ela tem
Desmembrada, sussurra, só faz barulho
Sua água não mata a sede a ninguém
Onde está o fontanário da Praça Velha
Os barquinhos do André a navegar
O ginásio onde estava a Ti Custódia
E a Voz do Botaréu sempre a tocar
Era o Tenente Flores a alegrar a terra
Com seu estúdio por ele ali montado
Onde transmitia sempre boa música
Ou algum disco para alguém dedicado
Do Jardim Velho até ao Botaréu
Para ouvirem os discos dedicados
Nesse lugar que era muito concorrido
Passeavam os casais dos namorados
Gente muito ilustre de Águeda ia à Custódia
Procurando o bom café que ela tinha
Até mesmo o Padre Óscar pela calada
Ia ali para beber sua ginjinha
Jogava-se lá bilhar e Ping-pong
Por dez tostões apenas cada jogada
Também o dominó, as damas, as cartas
E quantas vezes até de madrugada
Como era lindo ouvir as serenatas
Quando a lua ia alta, à luz do luar
E a voz cristalina do Alcino
Encantava todos com seu cantar
Há um fado que ele cantava tão bonito
E que sempre cantou ao longo da vida
Tinha uma letra de autor desconhecido
Era conhecida de Guitarra Querida
Assim Alcino se habituou a cantar o fado
E hoje com uma voz sem igual
É considerado nos meios artísticos
Como um dos melhores cantores de Portugal
A cúpula do céu, a lua e as estrelas
Eram o auditório para os cantores
Sua voz entoava suavemente
Quando a noite era calma e sem rumores
Cantou o Bibi e o Rui Vitaliano
Jorge Preto com sua voz de encantar
Acompanhado às vezes com instrumentos
Que davam mais vida ao seu cantar
Quando se ouvia o Hernâni Cabaço
Dando à noite um timbre invulgar
As meninas vinham todas às janelas
Só com o prazer de o ouvir cantar
Entoava lindos fados de Coimbra
Apreciados aqui no nosso meio
Cantava muito bem "Olhos Castanhos"
E a linda canção "Marco do Correio"
Como era consolador ouvir o Dário Vidal
Silveira Martins com o seu fado dolente
O Adolfo e o amigo Carvalho
O Nobre, Martins e António Doente
Era um rouxinol o amigo Valantas
Sempre com sua viola afinada
A cantar lindas canções mexicanas
Toda a noite até romper a madrugada
Quando a sua voz à noite se ouvia
À janela das garotas a cantar
Deliciáva-as com uma linda canção
Que eu quero agora aqui recordar
"Acorda se estás dormindo
Nesse sono enlevado
Acorda, vem à janela
Vem ouvir cantar o fado"
Cantava um fado o Silveira Martins
Que ele diz agora ter esquecido
Mas que eu quero recordar porque o ouvi
E que era o fado dele preferido
"Você não sei bem porquê
mas gosto de vê-la
você não sei bem porquê
não posso esquecê-la
Você finge que não vê
e que não dá por tal
talvez um dia você
venha a ter tormento igual
Você que desgraça
por mais que lhe faça
não gosta de mim
você bem podia
ser minha alegria
no entanto é assim
Você castiga
por mais que lhe diga
não mostra saber
você sempre esquiva
vaidosa e altiva
você não me quer"
Cantava o Gomes o fado de Lisboa
E o Zé Bala o fado de Coimbra
O nosso querido Alípio também se ouvia
Com sua voz encantadora que à noite timbra
Cantou César Maceta e Néu Funa
Cantava bem o Franquelim da Borralha
O Zé Pedro com a sua viola
A cantar os velhos fados p’rá maralha
Quando o Pedro cantava à namorada
Ou por ela muito apaixonado fica
Cantava com uma voz sentimental
"Ouve-me, meu amor, Virita, Virita"
O Alípio está ausente no Brasil
Traz sempre boa mensagem prá gente
Gosta d’Águeda e quer sempre falar dela
Porque nasceu cá, amor por ela sente
José Júlio Ribeiro também cantava
E a sua voz era muito apreciada
Como o doutor Martins com a sua viola
A cantar fados de Coimbra e balada
Doutor Madeira, exímio cantor
O fado de Coimbra é sua paixão
Cantou serenatas ainda estudante
Com a companheira guitarra na mão
Quem teve o privilégio de ouvir o Rui Vulga
A sua voz linda não havia igual
Como o Melo e o amigo João Saldanha
E lá pela Arrancada o Zé Vidal
Tinha voz inesquecível o Salgado
Ela cantava com muita categoria
Pessoas de idade vinham à janela
Quando pela noite a voz dele se ouvia
Também cantou o fado de Coimbra
O saudoso estudante Alfredo Costa
Como o Maximiano, o velho Escola
A cantar canções que tanto gosta
A minha terra tinha um ar tão diferente
Quando a Páscoa vinha era uma alegria
Águeda tinha um ar mais perfumado
Quando à semana Santa se assistia
Oh, como em criança tudo era diferente
De calções e bibe, as meninas com laços
Pela Páscoa com sentido nas amêndoas
De saco ao pescoço a pedir para os Passos
Essas Páscoas, ó Águeda eu não esqueço
O teu seio exalava tal cheirinho
As tuas ruas cobertas de verdura
Impregnadas de cheiro a rosmaninho
A Semana Santa, quem se lembra
Das cerimónias, das grandes pregações
Em que o povo aparecia todo em massa
Acompanhando as diversas procissões
De quarta feira até Domingo de Páscoa
O povo com respeito e devoção
Ia ao adro que estava sempre cheio
Para ouvir do senhor padre o seu sermão
Começava em quarta feira de Trevas
E todo o rapazio em geral
Aparecia nesse dia com as tréculas
E fazia um, barulho infernal
O ruído que faziam na igreja
Tinha sempre um período limitado
Mas se algum malandreco excedia
Deixava o senhor padre arreliado
Desde que começava a Semana Santa
Para iluminar a todo o instante
Até ao Domingo da Ressurreição
Estava a arder um círio gigante
Quando passava o senhor morto
Todo o povo com respeito e devoção
Vinha ouvir cantar a Verónica
No percurso de tão triste procissão
Belas vozes cantaram o Vos Omnes
Nas paragens ao longo da procissão
Cantou a Canquiça, a Rosa do Gravanço
Com linda voz como Odete do Sardão
Ensaiou muitos anos o Vos Omnes
Godofredo Duarte que foi grande regente
Homem de grande talento musical
Que bonitas obras deixou à gente
Ofereceu uma música da barcarola
Que guardo ainda com muito carinho
Com ela ganhei um prémio em Cesar
Com o rancho "Os Malmequeres de Campinho"
Ensinou a Glória dos padres-nossos
Também ensaiou o padre Rachão
O nosso saudoso padre Amílcar
Que Águeda chorou sua separação
Pelos Ramos era lindo ver no adro
Altas cruzes que eram bem ornamentadas
Revestidas a alecrim e muitos lírios
E pela rapaziada transportadas
Grupos de moços vinham a pé
Deslocando-se de toda a Freguesia
Com gigantes e pesadas cruzes
Que o senhor padre na igreja benzia
Todos procuravam trazer a melhor
Cruzes grandes, coisa que se veja
De tal maneira que a maior parte delas
Não as conseguiam meter na igreja
Com aprumo, muito respeito e fé
Já sagradas para o cristão verdadeiro
Depois de benzidas vinham em procissão
E circundavam o tão velho cruzeiro
E na crença deste povo tão cristão
O alecrim benzido era guardado
Para quando viesse a trovoada
Por entre duas telhas ser queimado
O seu cheirinho chegava ao céu
Como o incenso que tão bem cheira
Para que Deus desviasse a trovoada
Para onde não houvesse eira nem beira
Paredes apresentava a maior cruz
Que eram por muitos moços transportada
O seu peso ultrapassava os cem quilos
E era com quatro cordas segurada
Alguns rapazes que me lembre
que levaram a cruz no último ano
Foram Augusto Jeitosinho, Néu Charra
António Salazar, Joel e Herculano
Fizeram ainda parte Eugénio Preto
António Chula e o Nito Estica
E a cruz que seguia sempre deitada
No regresso encoastda à capela fica
E depois de estar ali durante meses
Onde o povo ia tirando o alecrim
Foi pr’á eira do senhor Dionísio Chula
Sendo ali que veio a ter seu fim
Nos anos atrás havia um outro grupo
Levaram uma cruz deitada com jeitinho
Tunha um peso à volta de duzentos quilos
Sendo o principal o Augusto Carapinho
Foram grandiosas as festas da paz
Feitas em honra de S. Sebastião
Com um programa de festa nunca visto
As melhores a este santo até então
Era obra de arte o Arco do Triunfo
Por onde veio a passar a procissão
Exalando um nevoeiro perfumado
Do doutor Adolfo imaginação
Teve um programa rico e variado
Foram as festas mais lindas que eu vi
Com boa iluminação e fogo preso
E a voz encantadora do Bibi
As festas de S. Pedro em Assequins
Estão bem patentes na minha memória
Donde vieram a nascer dois ranchos
Que honraram Águeda e fizeram história
Como era lindo o cortejo das colheitas
Que foi feito a favor do Hospital
Com muitos ranchos e carros alegóricos
Levando prendas e dinheiro em geral
Vinham ranchos de todos os lugares
Vestidos com lindas roupas a rigor
Interpretando canções maravilhosas
Ao som da pandeireta, do tambor
Num cortejo que me lembre, que beleza
Gente de Assequins com alegria sua
Cantava "Rancho d’Além", "Gota Espanhola"
E cantava o Cabo a "Marcha da Rua"
A vinte e dois do dez de qyuarenta e nove
Na escola dos Sargentos, em plena praça
Assistiu-se ao "Auto da Raínha Santa"
De Serafim Soares da Graça
Um cortejo ao sabor do século catorze
Com trombetas, pagens e escudeiros
Dezenas de cavaleiros com estandartes
E a iluminar as ruas, os archeiros
O grande cortejo saia do Joinal
Depois de cair grandes chuvadas
E as ruas sem a luz municipal
Ficavam com archotes iluminadas
Foi um espectáculo maravilhoso
Que foi interpretado por bons actores
Sobresaíndo o papel maravilhoso
Representado aliu por Orquídea Flores
Eram deste grupom ainda actores
José Silva, José Breda, Manuel Guerra
Fernando Brinco da Costa, Jorge Vargas
Todos eles grandes valores da nossa terra
Também Luciana Guerra, Alfredo Costa
Carlos Veiga, Eduardo Pinho
Gente que fez parte deste grande elenco
Que seguiram do cortejo seu caminho
Este lindo e memorável espectáculo
Teve em Marques Gomes figura principal
Com a Escola Central de Sargentos
Hospital e Câmara Municipal
Que bonita a festa do Souto do Rio
Toda a gente ia ali merendar
Havendo uma ponte feita em madeira
Para pr’á outra margem atravessar
Seguiam maltas a pé ou de bateira
Outros utilizavam os mercantéis
Sem se esquecerem do barril da moringa
E do açafate com os seus farnéis
Com cestos num pau pendurados às costas
Levando cada um o que quer e gosta
Lá seguiam penduradas as condessas
Mas sempre com um pano de linho à mostra
Festas houve a favor da sopa dos pobres
Organismo que o padre Amílcar fundou
Ajudado por um grupo de senhoras
Que nesta tarefa tanto o ajudou
Algumas destas generosas senhoras
Que trabalhavam sempre com muito afinco
Foram Gina Candeeiro, Rosa Pinho
Maria Augusta e Ernestina Brinco
Foi também D. Irene Marques Gomes
Maria Corga e Maria Ester Camelo
Que acompanhavam sempre esta jornada
Com amor aos pobres e bastante zelo
Alguns pobres iam mesmo *a Venda Nova
Onde tinham sopa, pão e às vezes vinho
Mas os que não podiam sair de casa
Era-lhes entregue com o mesmo carinho
Pelo Natal e Páscoa havia festa
Até comiam rancho melhorado
Arroz doce, aletria, boas filhós
Sendo tudo por pessoas de bem dado
Generosa com pena dos pobrezinhos
No hospital havia uma santa senhora
Que dava uma malga de sopa e bom pão
Era a saudosa Irmã Superiora
Ela praticava o bem e não negava
A quem quer que fosse um bocado de pão
Até mesmo agasalho fornecia
Era assim seu prestimoso coração
Acima da ponte a uns duzentos metros
Lá estava a piscina do Algés
Onde toda a mocidade ia nadar
E os mais velhos iam molhar os pés
Ao meio da tarde apareciam miúdos
Para praticar ali naquela escola
Onde aprendiam bem a nadar no rio
Com as boas lições da Lola
Durante trinta anos ensinou
Centenas de crianças a nadar
Fazendo sempre um trabalho prestimoso,
Com entusiasmo sem nada ganhar
Entusiasta era grande nadadora
Praticava natação de muito nova
E chegou mesmo a ganhar uma estafeta
Nadando de costas nessa mesma prova
Seu marido foi um grande nadador
Alinhando em alta competição
Dando luta ao afamado Petroni
Ao Mário Simas e até ao Trovão
Formaram-se ali bons nadadores
Que nos deixaram boas recordações
Como João Mano, Bério, Manué
E outros que até foram campeões
Nesse tempo foram grandes nadadores
Alcançando até o lugar primeiro
Bernardino Saraiva, José Rabeca, Bério
Jorge Cera, Dinis e José Júlio Ribeiro
Grande nadador foi também o foguete
E o António da Graça, o Salazar
Os dois Gastões e até o Gastão Velho
E outros mais que eu quero recordar
Dinis de Recardães, Sílvio Tanoeiro
Irmãos Martins, Carlos Salgado, André
Fernando Moreira, João Fuso, João Brinco
Feliciano Lima e irmão, José
Fui muitas vezes para o rio, tirava a roupa
E andava muito tempo a nadar
A dar tempo que minha a lavasse
Para ser vestida depois de secar
Que prazer apanhar canas de foguetes
Para aproveitar os fios dos canudos
Que serviam para segurar estrelas
Feitas por nós quando éramos miúdos
Papagaios de cana e de papel
Com sua enorme cauda a esvoaçar
Era ver quem conseguia a maior
Para mais horas poderem flutuar
Jogávamos ao calhamontra, à bilharda
Às escondidas, às malhas, ao botão
Ao berlinde, santa matuta, gazolo
À semana, pitorra, côncra, pião
Nos combros pela escuridão da noite
Como era bonito ver os luze-cus
Esses lindos insectos voadores
Que nos irradiavam raios de luz
Na mira de conseguir uma moeda
Segundo a crença que já vinha dos pais
Eram metidos debaixo de uma malga
Para lá deixarem um tostão a mais
Geralmente procurávamos nos vimeiros
As interessantes e frágeis joaninhas
Era um prazer apanhar estes insectos
Por serem de cor vermelha, às pintinhas
Apanhávamos estes lindos insectos
Eram colocados na palma da mão
E então dizíamos a lenga-lenga
Que há longos anos vinha de tradição
"Joaninha voa, voa
Que teu pai está em Lisboa
Traz um saco de farinha
Para dar à joaninha"
Era um prazer apanharmos as carochas
Que trazíamos com um fio penduradas
Ou atacar com calhaus as sardaniscas
Quando estavam nas pedras recostadas
Quase todos os rapazes tinham fisga
Para andarem à caça da passarada
E alguns tinham uma tal pontaria
Que matavam os passarinhos à calhoada
Que bons os morangos silvestres da Corga
Quando em tempos, por ali tantos havia
Ou as pequeninas cucas dos carvalhos
Que a rapaziada às vezes comia
Quantas vezes andávamos pelos combros
Procurando as amoras nos silvados
Ou medronhos vermelhinhos pelo monte
Fruto lindo que era tão apreciado
Para apanhar pintassilgos e pintarroxos
Aos domingos p'rós lados do ribeirinho
Andava por lá tanta rapaziada
Por haver por ali tanto passarinho
Utilizavam pontas de piassaba
E revestidas de visgo, muito aderente
Que colavam as asas das avezinhas
Ficando então ao alcance da gente
Andava por lá sempre o Raúl, Ribeiro
E o Zé Rachinhas aparecia às vezes
Como o marinheiro, António Moreira
O Armando Chibeiro e o Lanheses
Aparecia o ti Alfredo Tamanqueiro
Como Moita e o Elói que era vizinho
Adorava apanhar estas avezinhas
Que depois tratava com muito carinho
Ele tinha na loja tanta passarada
Que davam à rua vida e alegria
Cantavam canários e pintassilgos
E os lindos melros ao longo do dia
Havia um grupo lá pelo Botaréu
Que jogava à bola, às vezes de trapos
Era confeccionada com uma meia
Que só era cheia apenas de farrapos
Jogava Manuel de Oliveira, o Moina
José Júlio Ribeiro, Feliciano
Manuel Alegre, José Lima e Fuso
Carlos Leite, João Júlio e Mano
Às vezes jogava o Perna-Marota
O Alfredo Lima, o Firmino Gaspar
E quando apanhavam bola de borracha
Era caso mesmo para festejar
A Rua de Baixo tinha agitação
Com a oficina do Chico Marceneiro
Uma movimentada tinturaria
E o Daniel que era sapateiro
Também tinha a oficina do Canário
Onde um dia enorme incêndio deflagrou
Que deu origem a criar os Bombeiros
Que o Neca Carneiro com outros fundou
Tiveram lá início as Caves Monte Alto
Onde o Canal sete se encontra instalado
Passando depois para Além-da-Ponte
Onde muito vinho foi engarrafado
Transformaram-se as caves num lindo bar
Que apresentava sempre vinho do mais fino
E café que alcançara tanta fama
E que lhe deu o nome Bar Cimbalino
Foi lá que viveu o amigo Moina
E o grande poeta d' Águeda nasceu
Foi lá que tocou viola o Américo
E onde Celestino Neto viveu
Foi lá que o forno do Abel da Benta
Mesmo aos domingos tantos leitões assou
Que ele próprio vendia na praça velha
Onde tantos bons clientes aviou
Havia nesta rua a pensão Barata
Que teve sempre boa clientela
Era frequentada por muitos Sargentos
Que a preferiam e gostavam dela
A rua da Cancela tem grande história
Junto de um casa em que eu próprio vivi
Fazia lá bons doces a Libânia Loira
Que tantas vezes me dava e eu comi
A Fábrica de Produtos Químicos Pomba
Era empresa de pequena dimensão
Fabricava graxa, tintas, vernizes
Diluente, lacre cola e zarcão
Era o Joaquim Matias o seu dono
Com quem eu próprio convivi muita vez
E que mais tarde, na rua Lourenço Peixinho
Vendia lá calçado, Campeão Português
Viveu lá o grade artista Pechilo
Que lindos fogões de lenha fabricava
Até mesmo a ti Iria do quiosque
Que na sua casa frente a mim morava
Na casa do senhor Hélio Sucena
Que foram meus vizinhos e meus amigos
Quando no tempo das guerras liberais
Ali foram alguns soldados socorridos
Depois de ser demolido o hospital velho
À passagem da estrada número um
Era ali o hospital alternativo
Por não haver cá na vila mais nenhum
Foi feito um onde está o Sotto Mayor
E que até não chegou a laborar
Por motivo de condições higiénicas
Que o impediram de funcionar
Nesta rua da Cancela onde eu morei
Num compartimento do Manuel Simões
E à noite para ver televisão
Pagando de cada vez só dez tostões
Já pelas altas horas da madrugada
Quando a luz do luar nesta rua espelha
Funcionava ali um pequeno bar
A que chamavam a lanterna vermelha
Nesse bar que estava limpo e esmerado
Era ali que muito amigo se encontrava
Já depois de ter fechado os cafés
O Manuel Simões a todos aviava
Tantas noites se mantinham em convívio
Saindo a horas próximas do trabalho
Por terem ali petiscos a sair
E caldo Knorr temperado com sal-de-alho
Aparecia lá o Maximiano
O Adolfo, o Sousa e até o Bibi
Álvaro Breda, Nobre, Hernâni Cabaço
O Vidal e o Martins todo pipi
Ainda o Dário, Raúl Neves, João Breda
Arreganha, Manuel Correia, Sucena
Noronha, Guilherme, doutor José Maria
Girão e outros amantes da verbena
Rua de lavadeiras e prostitutas
Em tempos idos quando ali vivi
Eram lavadeiras a Pega e a Eva
Prostitutas a Magna e a Matari
As prostitutas eram mulheres de bem
Era um recurso para ganhar a vida
A guerra era causa de não haver pão
Miséria que ainda não foi esquecida
Quando a Matari entrou na reforma
Pedia esmola aos seus velhos clientes
Era geralmente de frente ao Camossa
Nem que estivessem as mulheres presentes
Esta linda rua saudades me deixa
Os meus tempos de infância me deixam pena
Quando convivi com grandes amigos
Foram eles José e Paulo Sucena
O largo da Venda Nova, que lindo
Era um encanto nesse tempo ido
Com a fonte tão bela com uma bomba
Que fora feita só de ferro fundido
Onde está a Câmara Municipal
Esteve o Campo de S. Sebastião
Onde o Recreio tantas vezes jogou
E o ti Firmino semeou o grão
O ti Firmino do Vale, meu avô
Muitos anos aquela terra amanhou
Entregou-a para o campo do Recreio
Onde um caminho de glória começou
Nas escarpeladas feitas em Setembro
Aparecia a malta para ajudar
Na mira de apanhar a espiga vermelha
Para as raparigas poderem beijar
Muitas vezes os rapazes de Paredes
Atravessavam de bateira o rio
Para ir escarpelar a Recardães
Em noites de orvalho e muito frio
De regresso os mais malandros e mais fortes
Quer fosse ao domingo quer fosse à semana
Iam de bateira fazer um assalto
Ao pomar da D. Maria Joana
Tinha laranjas de boa qualidade
E eram tantas que até vendia
Mas havia uma malta de Paredes
Que a maior parte da produção comia
http://www.eq.uc.pt/%7Ejorge/BRAZ/aguedavivi.html
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Mercado, anos 50
Mas que lindo era o mercado
No cais abaixo da ponte
Estava bem ordenado
Não havia nada a monte
Era bem organizado
Andava tudo na linha
Porque quem mandava ali
Era o amigo Burrinha
Trazia consigo aos ombros
Carteira de cabedal
Onde em troca de uma senha
Lá metia o capital
Era lindo ver serranas
Com as canastras no chão
Vendendo queijos fresquinhos
No meio da multidão
Nas canastras bem limpinhas,
O queijo vinha acamado
Era assim que o transportavam
Coberto com oleado
Mesmo encostado à ponte
Se vendiam protectores
Era tacha e era brocha
Em bastantes vendedores
Tudo vendido à dúzia
Em troca de alguns vinténs
Vinham alguns da Mourisca
Da Trofa e de Segadães
Mesmo ao lado do rio
Todos bastante alinhados
Estavam homens da carne
Com talhos improvisados
Vendiam carne de porco
Matança do seu trabalho
Também vendiam fressura
E tripas de Vinho d’alho
Bons cabritos vindos da serra
Bons borregos e carneiros
Havia rojões e banha
E até enchidos caseiros
Vinham cabritos da serra
Com guardadores a seu lado
Andavam dias a pé
Até chegar ao mercado
No matadouro em Paredes
Eram todos recebidos
E pelo Zé dos Cabritos
Eram muitos abatidos
Na festa de Assequins
Nossa senhora da graça
Matava muitos carneiros
Carneiros de boa raça
Numa festa que me lembre
A coisa foi por de mais
Abateu naquela terra
Cento e setenta animais
Também o amigo Girão
Com sua voz roufenha
Abatia bons carneiros
Fazia boa campanha
Ao José fazia frente
Seu gado não era mau
Matava muitos carneiros
Naquela festa do pau
O gado ali era morto
Mesmo em casa do freguês
Sempre com direito à pele
Que era tirada da rês
Na velha bicicleta
Transportava o seu gado
Metido numa canastra
Com destino ao mercado
O amigo Zé da Deia
Matava porcos caseiros
Tinha fama a sua carne
E até os seus fumeiros
A Zínia da Venda Nova
Lá estava no mercado
Com os seus oitenta anos
Também vendia bom gado
Carne de vitela ou porco
Na troca de mais dinheiro
Só no mestre Manuel do Talho
Ou no talho do Gameiro
Mais tarde veio o Hilário
Com boas carnes também
Mesmo perto do Barril
A todos servia bem
Estavam lá galinheiras
Com coelhos e borrachos
E também frangos caseiros
Que enriqueciam bons tachos
Utilizavam canastras
Era o sistema de então
Todas cobertas de rede
Servindo de protecção
Vendia-se milho e trigo
Aveia e azevém
Tudo vendido ao alqueire
Até à rasa também
Também os tamanqueiros
ali iam todo o ano
vender tamancos chiolas
E até chinelas de pano
Vinham ainda picheleiros
A vender lindas candeias
Que era fonte de luz
Para o povo das aldeias
Vendiam almudes cântaros
Até pr’á roupa bacias
Lindos funis regadores
E até almotolias
Picheleiros afamados
Que trabalharam por cá
Chico Carteiro e Gil
João Latoeiro e Pachá
O Joaquim Brinco Pum
Ao fundo da escada do adro
E ainda o Chegadinho
N’Além-da-Ponte instalado
Usavam chapa zincada
Tudo feito por seus braços
Fabricavam aguadouros
Também chamados cabaços
Ainda vinha ao mercado
Um casal de cordoeiros
Vender sogas adivais
Cabrestos e tamoeiros
Vendiam cordas diversas
E de número variado
Eram vendidas a metro
A metro bem aviado
Enfrentando uma vida dura
P’ra ganhar algum dinheiro
Vinha a Natália Pequena
E o Domingos Cordoeiro
E à volta do mercado
Trazendo burros ou machos
Aparecem vendedores
De tapetes e capachos
Junto às bombas de Shell
Com as bombas manuais
Estava o Abel da Benta
Com leitões habituais
Estaladiços cheirosos
Fumegavam estavam mornos
Vinham da rua de baixo
Directamente dos fornos
Vinham dentro de uma caixa
Toda feita de madeira
Mas com tampa protegida
Com a rede mosquiteira
Rua abaixo, rua acima
Andavam as barateiras
Com o seu carro de mão
Apregoando carteiras
Vendiam só miudezas
Linhas nastros e fitas
Também tinham balalaicas
E até Marias-Ritas
Navalhas e canivetes
Até linhas e botões
Também vendiam camisas
A troco de alguns tostões
Apareciam os gravateiros
Sempre com novos padrões
Com as gravatas expostas
À sua frente em varões
Bem usadas nesse tempo
Era o luxo de então
Que dava ao rico e ao pobre
Uma outra distinção
Havia bons vendedores
Com muita apresentação
Que percorriam as ruas
Com a sua exposição
O Joaquim Correeiro
Aparecia muitas vezes
Como o Bento e o Zé Bicho
E ainda o Raúl Lancetes
Havia um fabricante
Em Águeda foi o primeiro
Tinha até um fino gosto
Era o Joaquim Gravateiro
Em frente ao Brites das roupas
A vender o berbigão
Lá estava o Ti Camilo
Com o seu búzio na mão
Com medidas de madeira
A cinco e a dez tostões
Tudo levava para casa
Os fresquinhos berbigões
Vinha o carro do Clarindo
E também o do Abel
Vinha ainda o, Manel Gago
Com berbigões a granel
Numa carroça de burros
À Barra os iam buscar
Viajando toda a noite
Para cedo aqui chegar
Apregoavam em voz alta
"Ó povo tens o que queres"
"Olha o berbigão graúdo"
"Levem a crica mulheres"
Louça de barro vermelho
De trabalho artesanal
Também ali estava exposto
A todo o povo em Geral
Vasos, moringas, picheiras
Canecas lindas, tigelas
Ainda alguidares para a roupa
Cântaros, funis, gamelas
Havia ali lindas cântaras
E de qualidade boa
De trabalho artesanal
À entrada da Alagôa
Nessa pequena fábrica
De trabalho feito à mão
Processo rudimentares
Estavam na execução
A louça de barro preto
Em Molelos fabricada
Pela sua utilidade
Era muito procurada
Cafeteiras p’ró café
Caçoilas e assadeiras
Pecinhas decorativas
Pratos e até picheiras
Também se vendiam potes
No interior vidrados
P’ra Conservar azeitona
Eram muito procurados
Para conservar o unto
Onde os rojões guardavam
Lá vinham comprar os potes
Quando o seu porco matavam
Apertadas com um fio
Mesmo aos ombros penduradas
Andavam os vendedores
Com latas recuperadas
Apregoavam as latas
Que eram usadas do óleo
"Olha os púc’ros para a água
Olha as latas p’ró petróleo"
Apareciam vendedores
Que percorriam as feiras
Com sogas e cofinhos
Com costêlos e peneiras
As peneiras de arame
de seda ou de latão
Eram muitas vezes feitas
Na praça, na ocasião
Eles vendiam ferragens
Foicinhas, tenazes, trempes
Pregos, podões e gadanhas
E até vendiam sementes
Até mesmo o Borda d’Água
Enxadas, sachos, farpões
Machados e ratoeiras
Forquilhas e alviões
Tinham enxadas de dois bicos
Ainda ancinhos de madeira
Plainas, enchós e arame
E até rede mosquiteira
As panelas de três pernas
Eram vendidas nas feiras
Piche e rebite zincado
P’ró fabrico das bateiras
Vendia-se ráfia aos molhos
E batoques para as pipas
Para estas as torneiras
P’rós enchidos secas tripas
Estavam sertãs de ferro
Lindos tachos e panelas
Havia ainda embudes
Havia lacre e sovelas
Duas correias aos ombros
Segurando um tabuleiro
Era assim que o Rei-das-Limas
Ganhava algum dinheiro
Vendia Limas e grosas
Até mesmo limatões
E limas de cabo de aço
Para ganhar alguns tostões
Levava tudo a rir
E não deixava uma feira
Para ir vender os monos
Vindos do Tomé Feteira
Também o amola-tesouras
Com banca improvisada
Lá dava uma tocadela
Na sua gaita afinada
Fazia rodar c’os pés
Uma roda bem pesada
Que ligada por correia
O esmeril movimentava
Amolava ferramentas
Tesouras, facas esmurradas
Também compunha varetas
Quando estavam avariadas
Como a vida estava má
Para não comprar novos pratos
Quando se partia algum
Eram unidos com gatos
Os gatos eram de arame
E o mestre os concebia
Aplicados com cimento
O prato partido unia
Às vezes durava anos
Tão seguro como novo
Era assim que se poupava
Era a miséria do povo
O senhor José Fernandes
Em Águeda é o mais antigo
Anda há cinquenta anos
Trazendo o carro, consigo
E na ideia do povo
Segundo a crença que tem
Ao ver o Manuel Fernandes
É sinal que a chuva vem
Quando vinha o Augusto Estona
P’rá canalha era alegria
Com rodízios numa moca
E chapéus de fantasia
Trazia os chupa-chupas
De trabalho artesanal
Confeccionados por ele
Na terra do Ameal
Eram só feitos de açúcar
Em forminhas de papel
De papel de muitas cores
E vendidos a granel
Trazia em tabuleiros
Com cavidades furados
E tendo uma forma cónica
Eram ali enfiados
Era o regalo dos pobres
Dos pobrezinhos de antanho
A cinco e a dez tostões
Consoante o seu tamanho
Era delícia para alguns
P’ra outros era miragem
Crescendo água na boca
Quando vinham de passagem
Com caixinhas de madeira
Estavam lá engraxadores
Com frasquinhos de anilina
E escovas de duas cores
Tratavam bem o cliente
E para sua protecção
Colocavam duas palas
Geralmente de cartão
Era vê-los alinhados
Todos com o mesmo fim
Como António da Graça
Jaime Boche e Serafim
Estava ali o Edgar
E até o Mário Lapão
E mesmo o Santarém
Todos a ganhar o pão
Trabalhava para os bombeiros
O mais antigo afinal
De apelido conhecido
O amigo Natural
Todos eles se apuravam
Havia arte e jeitinho
Com pano de polimento
Até davam estalinho
Vinham alguns cantores do Porto
Com violas mas sem graça
Cantavam coisas horríveis
Anunciavam desgraça
Juntava-se o povo à volta
Com grande curiosidade
E compravam os panfletos
Com a triste novidade
Aproveitavam notícias
De crimes e de desgraça
Para ganharem seu pão
Andavam de praça em praça
Vendiam-se até remédios
P’ra curar qualquer doença
E o povo até comprava
Era assim a sua crença
Munidos de altifalantes
Na mira de alguma sobra
Com a sua propaganda
Vendiam Banha-da-cobra
Era remédio p’ró fígado
P’rá asma, p’rá rouquidão
Para a tensão elevada
E até para o coração
Fazia bem à bronquite
E até ao reumatismo
Tirava a febre e as dores
E curava o paludismo
Fazia dar vista ao cego
Punha a falar o mudo
Remédio milagroso
Era cura para tudo
"Dois pr’aqui mais dois pr’ali
Há poucos, vai acabar
P’ra facilitar a venda
Ponham a nota no ar"
"Não os quero maçar mais
Não me quero tornar chato
Evitem de levar um
Porque aos três é mais barato"
"Para alguém desprevenido
Fica a minha direcção
Porque envio à cobrança
Com toda a satisfação"
Havia lá três quiosques
Que tanta graça metiam
Mais perto da PVT
E muita coisa vendiam
Dois deles eram local
Onde fruta se vendia
Mais o mais antigo ali
Era o da velhinha Iria
O quiosque da Floripes
Com frutinha de primeira
Tinha pencas penduradas
De bananas da Madeira
Vendia pencas e nabos
Louro e salsa também
E a Elisiária pequena
Ajudava a sua mãe
Vendia cabeças d’ alho
Ramos de salsa e noz
Até pedaços de abóbora
Para fazer as filhós
O quiosque do Raúl Conde
Com revistas e jornais
Vendia até lotaria
Mesmo para intelectuais
Vendia a revista "Stadium"
Se a memória me não falha
Vendia mesmo o "Mosquito"
Para entreter a canalha
Vendia lindas revistas
E jornais de toda a gama
E o "Mundo de Aventuras"
Tão popular e com fama
Vendia o "Rimtimtim"
Para a criançada animar
Ainda o "Flecha Negra"
E o "Condor Popular"
Até tinha rebuçados
De uma grande colecção
Com todos os jogadores
Da primeira divisão
Enchendo uma caderneta
Com jogadores um-por-um
Lá recebia de prémio
Uma bola de "Cautchum"
Havia alguns viveiristas
Que serviam toda a gente
Como João Canas, Talhadas
Ainda o Manuel Vicente
Com árvores de qualidade
Com o seu trabalho e zelo
Vendiam com qualidade
De boas castas, bacelo
O amigo João Canas
Com muita dedicação
Levava muitos atados
Com destino à estação
Era no carro das vacas
O trabalho efectuado
E quando chegava ali
Ia tudo despachado
O parente Quim Talhadas
Foi um grande viveirista
Era muito persistente
Sempre com progresso à vista
Era muito habilidoso
P’ra conseguir seus intentos
Preparava boas árvores
Com diversos cruzamentos
Trabalhava em grande escala
Com muita dedicação
E muitos dos seus produtos
Eram para exportação
O grande homem da trompete
O amigo Manel Vicente
Tinha sempre bom bacelo
Que agradava a toda a gente
Estes homens de valor
Sem o pensar concerteza
Enriqueceram a terra
Deram vida à natureza
Deram-nos oxigénio
A base da nossa vida
E até aos passarinhos
Proporcionaram guarida
Apareciam correeiros
Com albardas e fivelas
Retrancas cilhas e rédeas
E cintos de formas belas
Também vendiam estribos
Que enfeitavam montadas
Vendiam lindos arreios
E bonitas cabeçadas
Era a toilette dos burros
E que tanto os enfeitava
Dava vida a algumas burras
Como a Balcória do Fava
Vinha gente lá da serra
Com ovos e criação
Com trigo aveia e milho
Grão de bico e feijão
Os ovos e cereais
Em canastras transportados
Destinavam-se a depósito
Onde eram cambiados
Eram vendidos no Afonso
E no César merceeiro
E até mesmo no Gil
Na troca de algum dinheiro
Os ovos eram embalados
Com cuidado especial
E em caixas de madeira
Seguiam para a capital
E percorrendo as ruas
Sempre no seu vem-vai
Com calma na bicicleta
Aparece o amigo Estai
Traz os garrafões de vinho
Em cima do guiador
Para clientes muito amigos
A quem apanhou amor
E lá vem do Ameal
Para ele é um prazer
Traz vinho de qualidade
Para o cliente beber
Também vinham canastreiros
Com canastras e cestinhas
Que eram feitas de castanho
Retalhado às tirinhas
Tinham muita utilidade
Mesmo p’rás pessoas nobres
E até servia de berço
Para as crianças mais pobres
Para os lados do São Pedro
Meu parente verdadeiro
Havia um grande artista
Adriano Canastreiro
António Alves da Costa
Foi um grande tanoeiro
Fazia todas as feiras
E também foi taberneiro
Vendia baldes canecos
Picheiras e escudelas
Lindas pipas, pás de forno
Até dornas e gamelas
Vendia colunas para vasos
Lindos mochos e cadeiras
Armários e mosqueiros
Malas e prateleiras
Vendia também masseiras
Peneiras bem acabadas
Até bancos de criança
E cadeiras articuladas.
E o Manel das Vacas
Com o seu pastor alemão
Aparecia muitas vezes
Fazendo exibição
Era o cão mais lindo de Águeda
Disso estava consciente
Quando parava na rua
Encantava toda a gente
Era do Doutor Amílcar
De quem era servidor
E o Manel que era aprumado
Era o seu zelador
Apareciam vendedores
De pequenos camarões
Eram vendidos à malga
Apenas por dez tostões
Com cebola com pimenta
Com azeite temperados
Regadinhos com um marquês
Ficávamos consolados
Aparecia o amigo Cheta
O albino e o Bibi
O Pantero, o Albaninho
E muitos mais que eu vi
Até o Mário de Barrô
Que por norma não se atrasa
Se não lhe davam esmola
Partia logo na brasa
Acompanhado de um pau
Muitas terras percorria
Andando sempre descalço
Numa grande correria
O Barco-ao-Fundo também
De Paredes oriundo
Quando este nome chamavam
Era logo o fim do mundo
Até o amigo Machado
Com cara de refilão
Vinha vender sabonetes
Era a sua distracção
O "Sabonete das Taipas"
Bonito e bem cheiroso
Era para o amigo Machado
Um negócio bem rendoso
Tudo tinha medo dele
Por matar um companheiro
Mas para mim foi sempre amigo
Até me dava dinheiro
Também o Chico Tinhoso
Com chapéu arredondado
Dormia uma soneca
Lá nos bancos do mercado
Quando passava a Anselma
E alguém "Pum" lhe dizia
Era logo o fim-do-mundo
E toda a gente ofendia
Um dia foi a Lisboa
E de surpresa ouviu "Pum"
Disse "são sacanas de Águeda
Lisboa não tem nenhum"
O nosso amigo Júlio
Sem ordenado nem rendas
P’ra ganhar a sua vida
Acarretava encomendas
Trabalhava sem parar
Ao Domingo e à semana
Mas bebia o seu marquês
Na tasca da Ti Joana
Ele gostava do Faísca
Na loja do Augusto Zica
E da sande habitual
Que tão barato nos fica
Quando ia ao Piolho
A ver os filmes de pé
Bebia no intervalo
Refresco de capilé
Até o amigo Teófilo
Não deixava os mercados
Pedindo a sua esmola
Com os pés muito inchados
Fora do tempo defeso
Em certas ocasiões
Aparecem vendedores
De robacos e pimpões
Traziam até lindas carpas
Enguias a rabear
Vinham vivas da pateira
Para o cliente comprar
Vinham alguns vendedores
Do rego e Óis da Ribeira
Uns vinham de bicicleta
Outros vinham de bateira
As vendedeiras da louça
Que vinham de Verdemilho
Vendiam peças bonitas
Sem defeito e com brilho
Vinham na véspera p’ra Águeda
Onde tinham armazém
Na Adelaide Coutinho
Onde dormiam também
Do armazém do Barril
A louça era acarretada
Ia em carros de mão próprios
E bem acondicionada
Louça preta era da Rita
A vermelha era d’ Aurora
As duas eram amigas
Foram pela vida fora
Vinham cestos de vindima
Dos lados d’ Óis da Ribeira
Eram só feitos de vime
E de vime de primeira
Destinavam-se à vindima
E à apanha da azeitona
Também chamados poceiros
Consoante a sua zona
Alguns dos seus fabricantes
Quando a campanha começa
Em casa dos lavradores
Faziam trabalho à peça
Vendiam-se até esteiras
Eram em Perrães fabricadas
Tinham muita utilidade
Eram muito procuradas
Nesse tempo as oliveiras
Tinham muita produção
E na apanha da azeitona
Eram espalhadas no chão
Até nalgumas casas
Com precárias condições
P’ra fazer compartimentos
Serviam p’ra vedações
Fabricantes de Perrães
Com habilidade sua
Fabricavam as esteiras
De bônho e atabua
Ao Domingo vinha à praça
O Resende de Óis da Ribeira
P’ra levar mercearia
Transportada de bateira
Seu patrão era o Martins
Que era muito conhecido
Como bom comerciante
Era assim abastecido
P’ra fazer a sua carga
Vinha logo de manhã
E a carga era feita
Junto à Auzenda Alemã
A Auzenda tinha uma tasca
Junto ao João Latoeiro
Tinha sempre boa pinga
E à porta um fogareiro
Tinha lá cachucho frito
Também havia coiratos
Havia enguias fritas
E preparava bons pratos
A sardinha de escabeche
Era este o seu pitéu
Na taberna que mais tarde
Foi da Glória do Xaréu
Mesmo junto ao André
O mercado da sardinha
Era coberto de chapa
E que linda graça tinha
Duas bancas paralelas
Numa base cimentada
Era ali nesse local
Que a venda se efectuava
A vender bonito peixe
E de qualidade fina
Estava a Palmira Morta
E também a Albertina
Com sardinha e com petinga
Tão bonita e tão boa
Estava a Eugénia Serrana
E a Elvira Sacristoa
Também estava o António Gago
E até a Preciosa
E a Maria da Luz
Com pescaria vistosa
Vendiam linda sardinha
Até chicharro de par
Petinga e navalhinha
E carapau a saltar
Eram rabos de sardinha
Nesse tempo bem salgada
Até sardinha amarela
Devidamente curada
A sardinha amarela
Tão gostosa e procurada
Havia quem lhe chamasse
Sardinha remelada
O António Pinheiro
E o Gaitas de Anadia
Qualquer deles era forte
E o mercado abastecia
Vinham de camioneta
Em correrias até
Às vezes de Matosinhos
De Peniche ou Nazaré
A vender o peixe grosso
Tão fresquinho a saltar
Estava ali o Guilherme
E a Maria Gaspar
Também a Ângela do Vale
Ali estava de manhã
Para fazer o mercado
Com a sua sócia irmã
O peixe vinha de Lisboa
Muito bem acondicionado
Vinha em caixas de madeira
Por comboio despachado
Com carro de duas rodas
Todos dias em geral
Ia o Guilherme à estação
Com a Maria do Vale
Traziam o fino peixe
Fresquinho quase a saltar
Com destino ao mercado
Para a venda efectuar
Linguado, e cachucho
Safio cherne e corvina
Raia, garoupa e pargo
E pescada da mais fina
Havia uma sardinheira
Assequins abastecia
Com a canastra à cabeça
Todo o lugar percorria
Como não sabia ler
Para saber a quem fia
Por sinais feitos no livro
Sabia quem lhe devia
A família ainda tem
Um livro com os risquinhos
Daquela a quem chamavam
Maria dos sinaizinhos
Vinha hortaliça de Aradas
E até de Verdemilho
Ainda de São Bernardo
Toda fresquinha com brilho
Vinha o Francisco José
E o António Pessegueiro
Ana Rosa e Zé Coelho
Com seu produto caseiro
Formavam-se enormes rimas
De bons nabos no mercado
Eram vendidos à dúzia
Para o povo interessado
Vendiam couves e grelos
E linda couve-flor
Que lindas pencas às vezes
E brócolos que eram um amor
Vinham em carros de bois
Da origem p’rós mercados
E é um caso curioso
Como eram transportados
O transporte era de noite
E o gado tão treinado
Vinha mesmo sem guião
Direitinho ao mercado
Num carro com a lanterna
P’ra presença assinalar
Vinha o dono a dormir
Tranquilo a descansar
Havia ali três tabernas
Com pinguinha de primeira
Era tirado da pipa
Mas directo p’rá picheira
Havia o copo pequeno
E também o de marquês
E até mesmo o penalty
Se bebia muita vez
O povo matava-o-bicho
Mesmo logo de manhã
Na tasquinha do Belmiro
Ou da Auzenda Alemã
Até Joana dos carros
Ali frente ao mercado
Tinha sempre bons petiscos
E vinho de bom agrado
O biquinho mais esquisito
Para ir mais longe arrisca
E vai mesmo ao Augusto Zica
Para beber um faísca
Quando Augusto se enervava
Ou havia confusão
O faísca da pipinha
Só saia por ração
Perto do Carlos Natal
Estava a loja do Afonso
Mas também do outro lado
O Pedro e o Ildefonso
Onde está o Sotto Mayor
O Pedro se divertia
Consertando bicicletas
Junto da tipografia
O tipógrafo Ildefonso
Trabalhava muito bem
Imprimia bons trabalhos
E até o "Águeda" também
Por cima do amigo Pedro
No andar número um
'Stava Bernardino Santos
Que era o Padre Balacum
Com depósito de milho
'stava ali o grémio também
Sendo seu administrador
O senhor Gomes de Serém
Vendiam-se até chapéus
Substituindo cartolas
E também belos bonés
E até boinas espanholas
Sachadeiras desse tempo
Usavam chapéus de palha
Uns eram de aba larga
E outros de fina palha
Os trabalhadores do campo
Todos eles em geral
Usavam estes chapéus
No seu trabalho rural
Manuel Alves Pereira
No tempo da minha infância
Fabricava bons chapéus
Com qualidade e elegância
Tinha na rua de cima
Um lindo estabelecimento
E ali os fabricava
Num outro compartimento
Quando ia para as feira
Que grande presença mete
Por fazer o seu transporte
Numa elegante Charrette
Era um carro elegante
E de animal tracção
Puxado por um cavalo
De toda a estimação
Ia fazer a Palhaça
A Moita e Aguada
Como Oliveira do Bairro
Sempre de linda montada
Rosalina Marques Maia
Há setenta anos idos
Já vendia os seus tremoços
Bonitos e bem curtidos
A sua filha Maria
Para o negócio começar
Pediu quatro tostões
Para os tremoços comprar
Os primeiros que vendeu
Não foi mal p’ra começar
Ganhou dois mil e quinhentos
Para uma saia comprar
A ti Maria dos tremoços
Mulher do Abílio Canas
Com os seus setenta anos
Bem do tempo das tricanas
Vestidinha a rigor
Com a canastra na mão
"Quem quer comprar tremoços"
Era assim o seu pregão
Com os seus setenta anos
Com a mesma animação
Vai p’rá a praça com tremoços
Com o seu carro-de-mão
Depois de demolhados
Os tremoços são cozidos
E demoram quatro dias
Para ficarem curtidos
Por não terem poluição
Os ribeiros antigamente
Eram ali postos em sacos
Bem expostos à corrente
Os sacos eram escondidos
Com uma pedra a assinalar
mas quando a malta os topava
Era um tal aviar
De Assequins ao Ribeirinho
Muitos sacos se encontrava
Naquela água tão pura
Que a sede nos matava
Havia uma tremoceira
Da terra do Ameal
Por sinal era ceguinha
Da quinta do morangal
Assadeiras de castanhas
Junto ao passeio alinhadas
Tinham-nas quentes e boas
Vistosas e bem assadas
Metidas numa assadeira
Sempre com sal bem mexidas
Embrulhadas em jornal
Eram à dúzia vendidas
Assou Maria do Carmo
E também a Cesaltina
A Esmeralda Barbosa
E Matari Josefina
Ainda Assunção do Arsénio
E a Maria Perdida
E quantas vezes à chuva
Para ganharem a vida
Muitas tabernas havia
Que à vila davam vida
Onde todos encontravam
Pinga boa e comida
Havia o Abel da Benta
Com vinho que era um amor
E até o João Moleiro
Chamado Carregador
Na tasca do Abel da Benta
Onde a carreira parava
Juntava-se lá muita gente
A gente que embarcava
No tecto da camioneta
À volta resguardada
Seguia toda a bagagem
Com uma corda amarrada
Os carros dos Azeitonas
Sempre limpos e afinados
De Aveiro ao Caramulo
Andavam sempre apinhados
Com a crise do petróleo
Em pleno tempo de guerra
Andavam a gasogénio
Mas lá subiam a serra
Quando o gás escasseava
Mas que grande frete tinha
O chauffeur parava o carro
Para dar à ventoinha
Uma fornalha redonda
Segura à parte de trás
Levava carvão a arder
Para conseguir o gás
Uma meia hora antes
Da camioneta partir
O carvão, estava a arder
Para o gás produzir
Era o senhor Olivette
Afamado cobrador
Toda a gente o respeitava
Por ser muito zelador
Com a falta da borracha
E mesmo das câmaras de ar
Enchiam pneus de palha
Para poderem andar
O bairro da Venda Nova
Estava bem apetrechado
Com a loja da serrana
E do Fausto Entrevado
Havia o "Cá-te-espero"
Junto ao São Sebastião
Com grande ramo de louro
Tinha muita agitação
Também a tasca do Hugo
Mesmo junto à estação
Aviava os clientes
À espera da embarcação
O vinho era afamado
Não havia coisa igual
Porque tinha grande mestre
Senhor António Pinhal
Em frente ao hospital
Onde está o dispensário
Havia uma taberna
Que era do Elisiário
Vendia lá bons leitões
E ao Domingo em geral
Tinha boa clientela
De visita ao hospital
A Zínia perto da fonte
Num ambiente caseiro
Servia lá bons petiscos
E Chouriças do fumeiro
Fazia também a praça
Com bons porcos que matava
E até Glória Macaca
Era a sua empregada
No número oitenta e oito
Com a vida no seu final
Saíram-lhe oitenta contos
Na lotaria nacional
A loja do carregador
Junto à farmácia Amaral
Servia lá os moleiros
Que vinham do Ameal
As argolas nas paredes
Mesmo em frente à sua venda
Eram para prender os burros
Carregados de moenda
Passava lá uma burra
Que fazia contestação
Se não lhe dessem umas sopas
Feitas de vinho e de pão
A burra de que vos falo
Que só assim se acalmava
Era uma burra afamada
Era a Balcória do Fava
Havia ainda o Sousa
Havia o Guilherme Guerra
E também o tanoeiro
E o amigo Zé Serra
Vinham de Castelo Branco
Em cavalos bem tratados
Com palha em cestos metidos
Queijos da serra curados
Queijeiros vindos da serra
Com dificuldades tantas
Só traziam pr’ agasalho
Apenas algumas mantas
Eles vinham de muito longe
Andando de terra em terra
Demorando muitos dias
Até voltarem à serra
De Fornos e Celorico
De lá vinham outros também
Com queijinhos amanteigados
Que fama tinham também
O senhor Carlos Bragança
E Manel Paixão, os dois
Vinham vender couve ao centro
Com os seus carros de bois
Também o João Serrano
Vindo de Aveiro, Aradas
Trazia no seu cavalo
Onde eram transportadas
Um dia ele teve azar
E o cavalo assustado
Caiu numa ribanceira
Ficou todo espatifado
O cavalo e o Serrano
Ficaram os dois feridos
Mas em breve recuperaram
Continuando os dois unidos
Vende em Águeda há meio século
Ainda hoje aqui vem
Com uma clientela antiga
Ainda vende muito bem
A Albertina Tavares
Ao mercado de Águeda afecta
Vinha com o seu marido
Os dois de bicicleta
Com uma grande carga atrás
Quando a couve transportava
Ao sair da bicicleta
Ela até empinava
De Pinheiro da Bemposta
P’ra evitar a bicicleta
Mais tarde lá resolveram
A vir de camioneta
Vinha na dos Oliveiras
Era fácil muito mais
E até lá pernoitavam
Send’ amigos pessoais
Homens da marionetas
De bonecos bem espertos
Também vinham ao mercado
Com os chamados Robertos
Bonecos manipulados
Dentro duma vedação
Encantavam os pequenos
Dando-lhes satisfação
Ao acabar o trabalho
Com graça e animação
Faziam um peditório
Com uma boina na mão
Apareciam barracas
Com os jogos de panelas
Eram lindas de alumínio
E tudo gostava delas
Traziam jogos de tachos
De cafeteiras também
E calhavam por sorteio
A quem acertasse bem
Toda a gente as pretendia
E por gostar tanto delas
Era muito concorrida
A barraca das panelas
Tinham lá mesmo ao meio
Três roletas penduradas
E quando elas giravam
Eram séries sorteadas
Ali à volta das barracas
Juntavam-se multidões
Comprando a sua série
Apenas por dez tostões
Com a ideia das panelas
Um dia eu me tentei
E apenas com um bilhete
No número exacto acertei
E uma pessoa rica
Convenceu a minha mãe
A vender as panelinhas
E que lhas pagava bem
A minha mãe lá cedeu
Depois de um pouco pensar
Dava mais jeito o dinheiro
Para o pão nos comprar
Fazia venda na praça
A moleira Anunciação
Com Farinha de milho, trigo
E mistura para o pão
Quando chegava ao Botaréu
Com os burros carregados
Numa pedra junto ao rio
Eram ali amarrados
Os burros que trazia
Como tinham de esperar
Apareciam voluntários
Para os levar a pastar
Eles grandes malandrecos
Em vez de os por a pastar
Andavam toda a manhã
Com eles a cavalgar
Mesmo junto ao Botaréu
Era aí o picadeiro
Montava o Jaime Marques
E o Zé Júlio Ribeiro
Cavalgava o Quim Moina
E o Firmino Gaspar
Depois vinha o João Júlio
Todos queriam montar
O Elói era o mais novo
Na arte de cavalgar
Um dia montou um burro
Mas foi um dia de azar
Quando se sentou na albarda
Armado em sabichão
O burro deu dois pinotes
E pregou com ele no chão
Até mesmo o João Fuso
Com seu ar de malandrão
Montava os pobres burros
Era a sua distracção
O José Júlio Ribeiro
Com o Fuso à batatada
Atingido com uma pedra
Ficou de testa rachada
Parece que ainda se nota
A marca no deputado
Porque o Jogo aziago
Ficou sempre assinalado
E os pobres do dois burros
Sem ter tempo p’ra pastar
Voltavam à sua dona
Sem ponta d’erva tragar
A velha Anunciação
Que a cena desconhecia
Com palavras de ternura
Ainda lhes agradecia
A tia Anunciação
Era uma linda figura
Com um lenço na cabeça
E um pano à cintura
Trazia uma carteira
Em forma de coração
Com pano de muitas cores
E linda apresentação
Ali metia os trocados
Da venda ou da maquia
Andando sempre com ela
No avental todo o dia
Havia tendas da roupa
Em frente ao Carlos Natal
Vendiam lá cobertores
E toda a roupa em geral
Vendiam pano a metro
E riscado da tabela
Com a cor verde e vermelha
Bem destacada na aureola
Tinham lá xailes grossos
E mais finos de marino
Para as senhoras mais ricas
P'ra um aspecto mais fino
Vendiam cuecas, ceroulas
Corpetes e aventais
Tudo isto executado
Em trabalhos manuais
As mulheres da roupa feita
Num trabalho feito à mão
Percorriam os mercados
Com a sua confecção
Lá iam de bicicleta
Ao sol, à chuva e ao vento
Com o fardo no suporte
Era assim o seu tormento
Percorria muitas feiras
A Ludovina Balreira
Com a Clara de Paredes
E a Maria Pereira
Também a Dália Natal
Ainda sem armazém
Andava com roupas feitas
De feira em feira também
A ti Glória Chula
De costura percebia
Andava de casa em casa
A fazer trabalho ao dia
Tinha fama o seu trabalho
Toda a gente a procurava
Era muito despachada
O seu trabalho agradava
Nos serões e horas vagas
Às vezes noites inteiras
Preparava mais trabalhos
Para levar para as feiras
Levava bicicleta
Com o seu fardo atrás
Às vezes com trinta quilos
E até por estradas más
Mais tarde veio o Júlio
Que transporte efectuava
Com camioneta de carga
E as feirantes levava
Seguiam na camioneta
Nos seus bancos laterais
Iam sempre aos solavancos
Com barulhos infernais
E a ti Glória Chula
Por não haver infantário
Levava o seu filho Egberto
Tinha isto por fadário
Ele ia numa canastra
Que era o berço dos pobres
E quantos nelas dormiam
Com sentimentos tão nobres
O rapaz da minha rua
Que hoje vive tão bem
Já comeu o pão amargo
Que não fez mal a ninguém
O Egberto ia no carro
Pelas tendeiras guardado
Era o menino das bruxas
E por todos adorado
Havia fruta na praça
Mas fruta da ocasião
Não havia frigoríficos
P'rá a sua conservação
Vendia ali a Matilde
A Amélia e a Margarida
Eram mulheres agitadas
No seu princípio de vida
O Zé e a Maria Augusta
Também vinham ao mercado
Num carro de duas rodas
Por um burrinho puxado
Ao fazer a sua venda
E a praça estar acabada
Regressavam a Arrancada
Com a venda efectuada
Apareceu a Matilde
Na praça um pouco mais tarde
Com diversas novidades
Importadas do Algarve
Vinham de Luz de Tavira
De Boliqueime e de Olhão
Também d’Armação de Pêra
Que era boa região
A Isaura da Bicha-Moira
Era mulher muito calma
Foi sempre de boas contas
Que Deus lhe fale na alma
O ti João das batatas
Marido e bom companheiro
Tinha também seu negócio
E ganhava algum dinheiro
Negociava batatas
Até milho e feijões
Percorria muitas feiras
Para vender os leitões
Também vinha de Paredes
Banana que era um amor
Vendida ali no mercado
Mas pelo João Feitor
Este feitor foi meu sócio
E a nossa separação
Teve origem na desgraça
Da morte de seu irmão
Custou cento e vinte escudos
O nosso carro de mão
Para servir de transporte
Foi primeira aquisição
Belarmina a mais antiga
Eu dela me lembro bem
Tinha já bastante idade
Negociava também
Vendia no caramulo
Sempre artigo do mais fino
Mesmo junto ao fontanário
Bem perto do Flausino
Ao chegar a camioneta
Sem ter loja nem ter tenda
Era no meio da rua
Que fazia a sua venda
Vendia p'ra muitas casas
Até mesmo refeitórios
Mas a sua maior venda
Era para os sanatórios
Havia uma frutaria
Que abasteci muita vezes
Era do António Chibeiro
E da companheira Inês
A sua loja de venda
Abria bastante cedo
Era perto do Sabino
Rua Ferraz de Macedo
Tiveram ainda uma outra
Em frente à tesouraria
Que foi cedida ao Euclides
Pr'á sua papelaria
Também a Lurdes da fruta
Junto ao Ernesto Ruela
Tinha sempre boa fruta
Fruta vistosa e bela
De fronte a ela a ti Márcia
Que a falar não gagueja
Vendia ali lenha à dúzia
E molhinhos de carqueja
Também tinha bons ovos
Havia bom cereal
Na lojinha instalada
Onde está a Foto Central
Pr'a comer com bom conforto
Carne, peixe ou coisas mais
Só numa casa afamada
Era a pensão do Morais
Também tinha mercearia
E no dia do mercado
Tinha muito movimento
Mas era tudo aviado
O açúcar e o arroz
Na véspera era ensacado
Em cartuchos de papel
Era tudo bem pesado
Vendia sabão à barra
Açúcar, arroz e massa
Também lá vendia velas
E até sabão de potassa
À dúzia vendia ovos
Fresquinhos, vindos da serra
Vendia o arroz corrente
E o gostoso arroz da terra
O café tinha um cheirinho
Era uma consolação
E seguia para o cliente
Moído na ocasião
O azeite tão gostoso
Para a sua clientela
Lá saía de uma máquina
Movida por manivela
Havia uma pensão
Mesmo à entrada da Cancela
Era muito concorrida
Tinha muita clientela
Era a Pensão Barata
Onde está o Ribeirinho
Seus clientes era Sargentos
Onde encontravam carinho
Já lá vão quarenta anos
'Inda lembro o seu labor
E até das pedras lindas
Que tinha no corredor
Também a Pensão Matilde
Com muita apresentação
Aviava muita gente
À hora da refeição
Tinha Sargentos diários
Que andavam a estudar
À procura de um galão
Para a vida melhorar
Anexo tinha taberna
Com petiscos sempre à mão
E uma seira de figos
Sempre comidos com pão
Tinha ainda bons tremoços
E amendoins torrados
Havia iscas de fígado
E chicharro aos bocados
Até o cachucho frito
Que era muito apreciado
Talvez por ser mais barato
Era muito procurado
Havia outra pensão
Que sempre bem nos servia
Era do Augusto Zica
E da esposa , senhora Gia
Tinha cozinha de luxo
Com grande fogão de lenha
Servia lá muita gente
Fosse da terra ou estranha
De fronte a Casa Santos
Com toda a sua grandeza
Era o café mais chique
Com muito luxo e beleza
Tinha clientela fina
Com gente com distinção
Onde comia pastéis
E tomavam o seu galão
Tinha café afamado
Nas mesas açucareiro
Os pastéis à meia dúzia
Na troca de algum dinheiro
O café feito e coado
Na máquina era metido
Com fogareiro a petróleo
Estava sempre aquecido
Ao fundo tinha um salão
Onde a noite iam passar
Os meninos da elite
Que gostavam do bilhar
Tinha sempre boa pinga
De se tirar o chapéu
Com a sua marca própria
Eram os Vinhos Botaréu
Tinha mercearia fina
E uma pastelaria
Com pastéis do seu fabrico
Que muita gente atendia
No Natal o Bolo Rei
Com tal movimentação
A gaveta de tão cheia
Caía a nota pr'ó chão
Tinha fama o pão-de-ló
Aveludado e mimoso
Era muito apreciado
Por ser bonito e gostoso
Em cima tinha pensão
Com serviço de primeira
E um salão muito chique
Decorado a madeira
Havia móveis na sala
De uma arte invulgar
Com madeira trabalhada
E espelhos a rematar
Na cozinha que era grande
Com luxo e bem montada
Era com grande limpeza
Comida confeccionada
Em cima tinha os quartos
Muito limpos, bem montados
E por Sargentos estudante
Eram muitos ocupados
Até muito viajante
Por ter boa recepção
Quando chegavam a Águeda
Procuravam esta pensão
De fronte à velha praça
Onde muito bem se trinca
Havia uma pensão
Que era da Maria Brinca
Tinha cozinha esmerada
Fazia boa comida
Muita gente a procurava
Pela fama conseguida
Alugava alguns quartos
Era residencial
E todos ali dormiam
Ninguém se sentia mal
Junto tinha uma taberna
Para matar a sequeira
A quem bebia o seu tinto
Servido de uma picheira
Havia ali bons petiscos
Sempre quente a sair
E pipas encanteiradas
Para pinguinha servir
Todas as tabernas tinha
As medidas aferidas
Pr'a fazer a medição
Caso fossem exigidas
O senhor Júlio Nápoles
Pr' aviar não tinha jeito
Embora de poucas falas
Impunha muito respeito
Era o proprietário
Da casa com tanta fama
E que hoje tem por nome
A Pensão Vasco da Gama
Junto aos Paços do Concelho
A Pensão Comercial
Servia ali os Sargentos
E todo o povo em geral
E na loja do Barão
Muita coisa se vendia
Com enorme movimento
A vender mercearia
Tinha quase sempre à porta
Uma coisa muito gira
Era o polvo em cestinhos
Importado de Tavira
Era uma casa diferente
Tinha muitas coisas mais
E era especializada
Em solas e cabedais
Vendia muitos artigos
Em certas ocasiões
Até ali se vendia
O chumbo para caixões
Tinha na sua gerência
Pessoas conceituadas
E operações bancárias
Eram ali efectuadas
Máquinas registadoras
Com muita apresentação
Tinha uma a Casa Santos
E tinha outra o Barão
Eram peças de museu
Lindas, bem trabalhadas
Movidas por manivela
Para ser movimentadas
E num grande mostrador
A conta apresentavam
Fazendo barulho a abrir
As campainhas tocavam
O Eugénio Regedor
Tinha uma mercearia
Vendia lá bom café
Que no momento moía
A moagem manual
Era uma coisa bela
Numa máquina gigante
Movida por manivela
Ele vendia sapatilhas
Anilina, até graxa
Bonecas de celulóide
E sapatos de borracha
Havia bons armazéns
De mercearia e afins
Como o armazém da fábrica
Na estrada de Assequins
Armazém do Encarnação
E muitos mais nós tivemos
Foi o Antero Varanda
E também o João Lemos
A casa do Simões Dias
Era um armazém completo
Sendo bem orientado
Pelo empregado Anacleto
O Grémio tinha armazém
Á entrada da cancela
Onde tinha os adubos
Para a sua clientela
Quando aviavam os clientes
Empregados a servi-los
Carregavam aos seus ombros
Grandes sacos de cem quilos
O armazém do milho
Deste belo cereal
Era perto do barril
Junto ao Carlos Natal
Na casa da baronesa
Com bastante animação
Havia um armazém
Que pertencia ao Barão
Com a sua hanomag
Fazia a distribuição
Percorrendo as aldeias
Com calma, sem confusão
Mesmo na Rua de Cima
Um bom armazém tivemos
Tinha artigos variados
Era o do João Lemos
O amigo Manuel
Tinha agitado a missão
Andava com o senhor Lemos
Sempre na distribuição
Nesse tempo as bolachas
Eram em latas metidas
Vinham mesmo a granel
E assim eram vendidas
Havia rimas enormes
Dentro do seu armazém
De diversas qualidades
Que se vendiam tão bem
O armazém do Simões Dias
Vendia muitos artigos
Na rua Ferraz de Macedo
Há sessenta anos idos
Senhor António Vieira
O primeiro encarregado
Era um homem muito activo
Trabalhador dedicado
Depois veio o senhor Artur
Ao trabalho muito afecto
Que mais tarde deu lugar
Ao senhor Anacleto
Nesse tempo os adubos
Para serem transportados
Eram em carros de cavalos
Possantes e bem tratados
Por estarem ultrapassados
E para mais tonelagem
Acabaram com os cavalos
Compraram um Volkswagen
Mais tarde o amigo Artur
Um outro carro conduz
Com um furgão mais robusto
De marca Ford Taunus
Como agente da CUF
Era o mais forte armazém
Vendia muitos adubos
E revendia também
Os sacos eram pesados
E nessa missão amarga
O Manuel Jeitosinho
Fazia sempre a descarga
Só por um litro de vinho
Um dia uma aposta fez
Carregar duzentos quilos
Apenas, só de uma vez
Conseguiu ganhar a aposta
Esse homem que era valente
Que por ganhar a garrafa
Ficara todo contente
O lindo Café Jardim
Com o pátio sevilhano
Vendia boa cerveja
Em todos os meses do ano
O senhor Álvaro Lima
Era ali encarregado
E como era brioso
Trazia tudo esmerado
No andar número um
Com a sala de bilhar
Juntava lá a mocidade
À espera para jogar
No pátio sevilhano
Às vezes fados havia
Ou até ilusionismo
Que o povo divertia
Andava um homem na rua
Para ele era um regalo
Apregoando em voz alta
Olha o remédio pr'ó calo
Geralmente andava a pé
O homem de que vos falo
Com o seu forte pregão
Também dizia "é pr'ó calo!"
Vinha gente da torreira
Pr'a vender as camarinhas
Transportadas em posseiros
E vendidas às cestinhas
E com cestos muito grandes
Mulheres com muita graça
Vinham vender as regueifas
Andando à volta da praça
Vendiam mesmo na rua
E até davam a prova
Dessas regueifas tão boas
De Albergaria-a-Nova
Andavam até mercadores
De peles de coelho e lã
Apareciam ao Domingo
Geralmente de manhã
Compravam peles de coelho
Ferro velho, até sarro
Andavam de bicicleta
Porque poucos tinham carro
As velharias e a lã
Eram ao quilo pesadas
Numa balança de mola
Onde eram penduradas
De seu nome dinamómetros
Tão fáceis de transportar
Tinham uma grande mola
Para o peso controlar
Onde está o João Latoeiro
Que consolador cheirinho
Da broa que ali vendia
A Glória do Casaínho
P'ra fazer as suas compras
Por não saber escrever
Apontava com risquinhos
Quem lhe ficava a dever
E ninguém a enganava
Nas continhas que fazia
Mesmo sem a tabuada
A fazê-las se entendia
Ela vendia farinha
Mesmo em pequenas porções
E até gostosas padas
Apenas por dois tostões
Um dia o amigo Burrinha
Actuando um pouco à toa
Foi a loja da ti Glória
Para lhe pesar a broa
Disse logo não ter peso
E com instinto do mal
Envolveu-a num processo
E levou-a a tribunal
Foi no tribunal do porto
Toda a broa conferida
Como tinha peso a mais
Ela foi absolvida
Ficou mal o funcionário
Amante da escravidão
Que às vezes aos pontapés
Espalhava tudo no chão
Se alguém não tinha senha
Às vezes por esquecimento
Era logo tudo preso
E levado no momento
Um dia o pobre Foguete
Achou dez mil reis no chão
Foi obrigado a entregá-los
Ameaçado de prisão
Passava um senhor na praça
Que metia aflição
Com a cabeça abaixada
E os olhos postos no chão
Era o senhor Luís Teosa
Homem rico e de bens
Que andava há cinco anos
A procurar dois vinténs
Tinha perdido a moeda
Ali mesmo no mercado
E na fé de os encontrar
Andava sempre abaixado
Aos domingos de canastra
De açafate ou posseiro
Vinha gente lá da serra
Ocupando o dia inteiro
Era novo e bem me lembro
Há tantos anos atrás
Só trazia dez escudos
A tia Rosa do Braz
Levava um cesto cheio
Cinco mil metros a andar
Quase sempre descalça
Até a casa chegar
Comprava boa hortaliça
E o carapau do mar
Lindos rabos de sardinha
Até chicharro de par
E como era Domingo
Para nossa consolação
Também levava consigo
Umas padinhas de pão
Do lugar de Assequins
P'ra ganhar algum dinheiro
Quando o calor apertava
Vinha o Abel sorveteiro
Seu transporte era um triciclo
Por pedais movimentado
Sentadinho no selim
Era tudo despachado
Apareciam cauteleiros
Alguns de grande perfil
Era o amigo Paradela
E o Carlos de Arganil
Vinha o Jorge de Coimbra
E o Arnaldo de lá vem
Como o amigo José Carlos
A vender jogo também
O Arnaldo de Mouquim
O Gomes de Oliveirinha
E até o senhor Albino
Que na lapela sempre as tinha
Havia casa de fazendas
Dos mais modernos padrões
Eram expostas em peças
Com destino a confecções
O Camossa era o mais forte
Em montras era o primeiro
Havia o Carlos Natal
Almeidas e senhor Ribeiro
O Almeida das fazendas
Homem com grande perfil
Também vendia passagens
Para África e Brasil
O empregado, senhor Alfredo
Tinha muita simpatia
Era homem de respeito
E muita gente atendia
Por se ter estabelecido
Esse homem sempre sem falhas
Ocupou o seu lugar
O senhor Luís das Malhas
O senhor António Almeida
Vendia também passagens
Para África e Brasil
E até outras paragens
A Madalena Balreira
Acarretava o correio
Com o seu carro de mão
Não havia outro meio
Ir à estação quatro vezes
Era a sua penitência
Trazia sacos fechados
Cheios de correspondência
Nas noites frias de Inverno
Que sacrifício ela fez
Esperar com paciência
Pelo comboio das dez
E assim durante anos
Foi o trabalho que fez
Para vencer o ordenado
De quinze escudos por mês
Farmácias cá na vila
Havia três afinal
Era a Vidal era a Ala
E a farmácia Amaral
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
No cais abaixo da ponte
Estava bem ordenado
Não havia nada a monte
Era bem organizado
Andava tudo na linha
Porque quem mandava ali
Era o amigo Burrinha
Trazia consigo aos ombros
Carteira de cabedal
Onde em troca de uma senha
Lá metia o capital
Era lindo ver serranas
Com as canastras no chão
Vendendo queijos fresquinhos
No meio da multidão
Nas canastras bem limpinhas,
O queijo vinha acamado
Era assim que o transportavam
Coberto com oleado
Mesmo encostado à ponte
Se vendiam protectores
Era tacha e era brocha
Em bastantes vendedores
Tudo vendido à dúzia
Em troca de alguns vinténs
Vinham alguns da Mourisca
Da Trofa e de Segadães
Mesmo ao lado do rio
Todos bastante alinhados
Estavam homens da carne
Com talhos improvisados
Vendiam carne de porco
Matança do seu trabalho
Também vendiam fressura
E tripas de Vinho d’alho
Bons cabritos vindos da serra
Bons borregos e carneiros
Havia rojões e banha
E até enchidos caseiros
Vinham cabritos da serra
Com guardadores a seu lado
Andavam dias a pé
Até chegar ao mercado
No matadouro em Paredes
Eram todos recebidos
E pelo Zé dos Cabritos
Eram muitos abatidos
Na festa de Assequins
Nossa senhora da graça
Matava muitos carneiros
Carneiros de boa raça
Numa festa que me lembre
A coisa foi por de mais
Abateu naquela terra
Cento e setenta animais
Também o amigo Girão
Com sua voz roufenha
Abatia bons carneiros
Fazia boa campanha
Ao José fazia frente
Seu gado não era mau
Matava muitos carneiros
Naquela festa do pau
O gado ali era morto
Mesmo em casa do freguês
Sempre com direito à pele
Que era tirada da rês
Na velha bicicleta
Transportava o seu gado
Metido numa canastra
Com destino ao mercado
O amigo Zé da Deia
Matava porcos caseiros
Tinha fama a sua carne
E até os seus fumeiros
A Zínia da Venda Nova
Lá estava no mercado
Com os seus oitenta anos
Também vendia bom gado
Carne de vitela ou porco
Na troca de mais dinheiro
Só no mestre Manuel do Talho
Ou no talho do Gameiro
Mais tarde veio o Hilário
Com boas carnes também
Mesmo perto do Barril
A todos servia bem
Estavam lá galinheiras
Com coelhos e borrachos
E também frangos caseiros
Que enriqueciam bons tachos
Utilizavam canastras
Era o sistema de então
Todas cobertas de rede
Servindo de protecção
Vendia-se milho e trigo
Aveia e azevém
Tudo vendido ao alqueire
Até à rasa também
Também os tamanqueiros
ali iam todo o ano
vender tamancos chiolas
E até chinelas de pano
Vinham ainda picheleiros
A vender lindas candeias
Que era fonte de luz
Para o povo das aldeias
Vendiam almudes cântaros
Até pr’á roupa bacias
Lindos funis regadores
E até almotolias
Picheleiros afamados
Que trabalharam por cá
Chico Carteiro e Gil
João Latoeiro e Pachá
O Joaquim Brinco Pum
Ao fundo da escada do adro
E ainda o Chegadinho
N’Além-da-Ponte instalado
Usavam chapa zincada
Tudo feito por seus braços
Fabricavam aguadouros
Também chamados cabaços
Ainda vinha ao mercado
Um casal de cordoeiros
Vender sogas adivais
Cabrestos e tamoeiros
Vendiam cordas diversas
E de número variado
Eram vendidas a metro
A metro bem aviado
Enfrentando uma vida dura
P’ra ganhar algum dinheiro
Vinha a Natália Pequena
E o Domingos Cordoeiro
E à volta do mercado
Trazendo burros ou machos
Aparecem vendedores
De tapetes e capachos
Junto às bombas de Shell
Com as bombas manuais
Estava o Abel da Benta
Com leitões habituais
Estaladiços cheirosos
Fumegavam estavam mornos
Vinham da rua de baixo
Directamente dos fornos
Vinham dentro de uma caixa
Toda feita de madeira
Mas com tampa protegida
Com a rede mosquiteira
Rua abaixo, rua acima
Andavam as barateiras
Com o seu carro de mão
Apregoando carteiras
Vendiam só miudezas
Linhas nastros e fitas
Também tinham balalaicas
E até Marias-Ritas
Navalhas e canivetes
Até linhas e botões
Também vendiam camisas
A troco de alguns tostões
Apareciam os gravateiros
Sempre com novos padrões
Com as gravatas expostas
À sua frente em varões
Bem usadas nesse tempo
Era o luxo de então
Que dava ao rico e ao pobre
Uma outra distinção
Havia bons vendedores
Com muita apresentação
Que percorriam as ruas
Com a sua exposição
O Joaquim Correeiro
Aparecia muitas vezes
Como o Bento e o Zé Bicho
E ainda o Raúl Lancetes
Havia um fabricante
Em Águeda foi o primeiro
Tinha até um fino gosto
Era o Joaquim Gravateiro
Em frente ao Brites das roupas
A vender o berbigão
Lá estava o Ti Camilo
Com o seu búzio na mão
Com medidas de madeira
A cinco e a dez tostões
Tudo levava para casa
Os fresquinhos berbigões
Vinha o carro do Clarindo
E também o do Abel
Vinha ainda o, Manel Gago
Com berbigões a granel
Numa carroça de burros
À Barra os iam buscar
Viajando toda a noite
Para cedo aqui chegar
Apregoavam em voz alta
"Ó povo tens o que queres"
"Olha o berbigão graúdo"
"Levem a crica mulheres"
Louça de barro vermelho
De trabalho artesanal
Também ali estava exposto
A todo o povo em Geral
Vasos, moringas, picheiras
Canecas lindas, tigelas
Ainda alguidares para a roupa
Cântaros, funis, gamelas
Havia ali lindas cântaras
E de qualidade boa
De trabalho artesanal
À entrada da Alagôa
Nessa pequena fábrica
De trabalho feito à mão
Processo rudimentares
Estavam na execução
A louça de barro preto
Em Molelos fabricada
Pela sua utilidade
Era muito procurada
Cafeteiras p’ró café
Caçoilas e assadeiras
Pecinhas decorativas
Pratos e até picheiras
Também se vendiam potes
No interior vidrados
P’ra Conservar azeitona
Eram muito procurados
Para conservar o unto
Onde os rojões guardavam
Lá vinham comprar os potes
Quando o seu porco matavam
Apertadas com um fio
Mesmo aos ombros penduradas
Andavam os vendedores
Com latas recuperadas
Apregoavam as latas
Que eram usadas do óleo
"Olha os púc’ros para a água
Olha as latas p’ró petróleo"
Apareciam vendedores
Que percorriam as feiras
Com sogas e cofinhos
Com costêlos e peneiras
As peneiras de arame
de seda ou de latão
Eram muitas vezes feitas
Na praça, na ocasião
Eles vendiam ferragens
Foicinhas, tenazes, trempes
Pregos, podões e gadanhas
E até vendiam sementes
Até mesmo o Borda d’Água
Enxadas, sachos, farpões
Machados e ratoeiras
Forquilhas e alviões
Tinham enxadas de dois bicos
Ainda ancinhos de madeira
Plainas, enchós e arame
E até rede mosquiteira
As panelas de três pernas
Eram vendidas nas feiras
Piche e rebite zincado
P’ró fabrico das bateiras
Vendia-se ráfia aos molhos
E batoques para as pipas
Para estas as torneiras
P’rós enchidos secas tripas
Estavam sertãs de ferro
Lindos tachos e panelas
Havia ainda embudes
Havia lacre e sovelas
Duas correias aos ombros
Segurando um tabuleiro
Era assim que o Rei-das-Limas
Ganhava algum dinheiro
Vendia Limas e grosas
Até mesmo limatões
E limas de cabo de aço
Para ganhar alguns tostões
Levava tudo a rir
E não deixava uma feira
Para ir vender os monos
Vindos do Tomé Feteira
Também o amola-tesouras
Com banca improvisada
Lá dava uma tocadela
Na sua gaita afinada
Fazia rodar c’os pés
Uma roda bem pesada
Que ligada por correia
O esmeril movimentava
Amolava ferramentas
Tesouras, facas esmurradas
Também compunha varetas
Quando estavam avariadas
Como a vida estava má
Para não comprar novos pratos
Quando se partia algum
Eram unidos com gatos
Os gatos eram de arame
E o mestre os concebia
Aplicados com cimento
O prato partido unia
Às vezes durava anos
Tão seguro como novo
Era assim que se poupava
Era a miséria do povo
O senhor José Fernandes
Em Águeda é o mais antigo
Anda há cinquenta anos
Trazendo o carro, consigo
E na ideia do povo
Segundo a crença que tem
Ao ver o Manuel Fernandes
É sinal que a chuva vem
Quando vinha o Augusto Estona
P’rá canalha era alegria
Com rodízios numa moca
E chapéus de fantasia
Trazia os chupa-chupas
De trabalho artesanal
Confeccionados por ele
Na terra do Ameal
Eram só feitos de açúcar
Em forminhas de papel
De papel de muitas cores
E vendidos a granel
Trazia em tabuleiros
Com cavidades furados
E tendo uma forma cónica
Eram ali enfiados
Era o regalo dos pobres
Dos pobrezinhos de antanho
A cinco e a dez tostões
Consoante o seu tamanho
Era delícia para alguns
P’ra outros era miragem
Crescendo água na boca
Quando vinham de passagem
Com caixinhas de madeira
Estavam lá engraxadores
Com frasquinhos de anilina
E escovas de duas cores
Tratavam bem o cliente
E para sua protecção
Colocavam duas palas
Geralmente de cartão
Era vê-los alinhados
Todos com o mesmo fim
Como António da Graça
Jaime Boche e Serafim
Estava ali o Edgar
E até o Mário Lapão
E mesmo o Santarém
Todos a ganhar o pão
Trabalhava para os bombeiros
O mais antigo afinal
De apelido conhecido
O amigo Natural
Todos eles se apuravam
Havia arte e jeitinho
Com pano de polimento
Até davam estalinho
Vinham alguns cantores do Porto
Com violas mas sem graça
Cantavam coisas horríveis
Anunciavam desgraça
Juntava-se o povo à volta
Com grande curiosidade
E compravam os panfletos
Com a triste novidade
Aproveitavam notícias
De crimes e de desgraça
Para ganharem seu pão
Andavam de praça em praça
Vendiam-se até remédios
P’ra curar qualquer doença
E o povo até comprava
Era assim a sua crença
Munidos de altifalantes
Na mira de alguma sobra
Com a sua propaganda
Vendiam Banha-da-cobra
Era remédio p’ró fígado
P’rá asma, p’rá rouquidão
Para a tensão elevada
E até para o coração
Fazia bem à bronquite
E até ao reumatismo
Tirava a febre e as dores
E curava o paludismo
Fazia dar vista ao cego
Punha a falar o mudo
Remédio milagroso
Era cura para tudo
"Dois pr’aqui mais dois pr’ali
Há poucos, vai acabar
P’ra facilitar a venda
Ponham a nota no ar"
"Não os quero maçar mais
Não me quero tornar chato
Evitem de levar um
Porque aos três é mais barato"
"Para alguém desprevenido
Fica a minha direcção
Porque envio à cobrança
Com toda a satisfação"
Havia lá três quiosques
Que tanta graça metiam
Mais perto da PVT
E muita coisa vendiam
Dois deles eram local
Onde fruta se vendia
Mais o mais antigo ali
Era o da velhinha Iria
O quiosque da Floripes
Com frutinha de primeira
Tinha pencas penduradas
De bananas da Madeira
Vendia pencas e nabos
Louro e salsa também
E a Elisiária pequena
Ajudava a sua mãe
Vendia cabeças d’ alho
Ramos de salsa e noz
Até pedaços de abóbora
Para fazer as filhós
O quiosque do Raúl Conde
Com revistas e jornais
Vendia até lotaria
Mesmo para intelectuais
Vendia a revista "Stadium"
Se a memória me não falha
Vendia mesmo o "Mosquito"
Para entreter a canalha
Vendia lindas revistas
E jornais de toda a gama
E o "Mundo de Aventuras"
Tão popular e com fama
Vendia o "Rimtimtim"
Para a criançada animar
Ainda o "Flecha Negra"
E o "Condor Popular"
Até tinha rebuçados
De uma grande colecção
Com todos os jogadores
Da primeira divisão
Enchendo uma caderneta
Com jogadores um-por-um
Lá recebia de prémio
Uma bola de "Cautchum"
Havia alguns viveiristas
Que serviam toda a gente
Como João Canas, Talhadas
Ainda o Manuel Vicente
Com árvores de qualidade
Com o seu trabalho e zelo
Vendiam com qualidade
De boas castas, bacelo
O amigo João Canas
Com muita dedicação
Levava muitos atados
Com destino à estação
Era no carro das vacas
O trabalho efectuado
E quando chegava ali
Ia tudo despachado
O parente Quim Talhadas
Foi um grande viveirista
Era muito persistente
Sempre com progresso à vista
Era muito habilidoso
P’ra conseguir seus intentos
Preparava boas árvores
Com diversos cruzamentos
Trabalhava em grande escala
Com muita dedicação
E muitos dos seus produtos
Eram para exportação
O grande homem da trompete
O amigo Manel Vicente
Tinha sempre bom bacelo
Que agradava a toda a gente
Estes homens de valor
Sem o pensar concerteza
Enriqueceram a terra
Deram vida à natureza
Deram-nos oxigénio
A base da nossa vida
E até aos passarinhos
Proporcionaram guarida
Apareciam correeiros
Com albardas e fivelas
Retrancas cilhas e rédeas
E cintos de formas belas
Também vendiam estribos
Que enfeitavam montadas
Vendiam lindos arreios
E bonitas cabeçadas
Era a toilette dos burros
E que tanto os enfeitava
Dava vida a algumas burras
Como a Balcória do Fava
Vinha gente lá da serra
Com ovos e criação
Com trigo aveia e milho
Grão de bico e feijão
Os ovos e cereais
Em canastras transportados
Destinavam-se a depósito
Onde eram cambiados
Eram vendidos no Afonso
E no César merceeiro
E até mesmo no Gil
Na troca de algum dinheiro
Os ovos eram embalados
Com cuidado especial
E em caixas de madeira
Seguiam para a capital
E percorrendo as ruas
Sempre no seu vem-vai
Com calma na bicicleta
Aparece o amigo Estai
Traz os garrafões de vinho
Em cima do guiador
Para clientes muito amigos
A quem apanhou amor
E lá vem do Ameal
Para ele é um prazer
Traz vinho de qualidade
Para o cliente beber
Também vinham canastreiros
Com canastras e cestinhas
Que eram feitas de castanho
Retalhado às tirinhas
Tinham muita utilidade
Mesmo p’rás pessoas nobres
E até servia de berço
Para as crianças mais pobres
Para os lados do São Pedro
Meu parente verdadeiro
Havia um grande artista
Adriano Canastreiro
António Alves da Costa
Foi um grande tanoeiro
Fazia todas as feiras
E também foi taberneiro
Vendia baldes canecos
Picheiras e escudelas
Lindas pipas, pás de forno
Até dornas e gamelas
Vendia colunas para vasos
Lindos mochos e cadeiras
Armários e mosqueiros
Malas e prateleiras
Vendia também masseiras
Peneiras bem acabadas
Até bancos de criança
E cadeiras articuladas.
E o Manel das Vacas
Com o seu pastor alemão
Aparecia muitas vezes
Fazendo exibição
Era o cão mais lindo de Águeda
Disso estava consciente
Quando parava na rua
Encantava toda a gente
Era do Doutor Amílcar
De quem era servidor
E o Manel que era aprumado
Era o seu zelador
Apareciam vendedores
De pequenos camarões
Eram vendidos à malga
Apenas por dez tostões
Com cebola com pimenta
Com azeite temperados
Regadinhos com um marquês
Ficávamos consolados
Aparecia o amigo Cheta
O albino e o Bibi
O Pantero, o Albaninho
E muitos mais que eu vi
Até o Mário de Barrô
Que por norma não se atrasa
Se não lhe davam esmola
Partia logo na brasa
Acompanhado de um pau
Muitas terras percorria
Andando sempre descalço
Numa grande correria
O Barco-ao-Fundo também
De Paredes oriundo
Quando este nome chamavam
Era logo o fim do mundo
Até o amigo Machado
Com cara de refilão
Vinha vender sabonetes
Era a sua distracção
O "Sabonete das Taipas"
Bonito e bem cheiroso
Era para o amigo Machado
Um negócio bem rendoso
Tudo tinha medo dele
Por matar um companheiro
Mas para mim foi sempre amigo
Até me dava dinheiro
Também o Chico Tinhoso
Com chapéu arredondado
Dormia uma soneca
Lá nos bancos do mercado
Quando passava a Anselma
E alguém "Pum" lhe dizia
Era logo o fim-do-mundo
E toda a gente ofendia
Um dia foi a Lisboa
E de surpresa ouviu "Pum"
Disse "são sacanas de Águeda
Lisboa não tem nenhum"
O nosso amigo Júlio
Sem ordenado nem rendas
P’ra ganhar a sua vida
Acarretava encomendas
Trabalhava sem parar
Ao Domingo e à semana
Mas bebia o seu marquês
Na tasca da Ti Joana
Ele gostava do Faísca
Na loja do Augusto Zica
E da sande habitual
Que tão barato nos fica
Quando ia ao Piolho
A ver os filmes de pé
Bebia no intervalo
Refresco de capilé
Até o amigo Teófilo
Não deixava os mercados
Pedindo a sua esmola
Com os pés muito inchados
Fora do tempo defeso
Em certas ocasiões
Aparecem vendedores
De robacos e pimpões
Traziam até lindas carpas
Enguias a rabear
Vinham vivas da pateira
Para o cliente comprar
Vinham alguns vendedores
Do rego e Óis da Ribeira
Uns vinham de bicicleta
Outros vinham de bateira
As vendedeiras da louça
Que vinham de Verdemilho
Vendiam peças bonitas
Sem defeito e com brilho
Vinham na véspera p’ra Águeda
Onde tinham armazém
Na Adelaide Coutinho
Onde dormiam também
Do armazém do Barril
A louça era acarretada
Ia em carros de mão próprios
E bem acondicionada
Louça preta era da Rita
A vermelha era d’ Aurora
As duas eram amigas
Foram pela vida fora
Vinham cestos de vindima
Dos lados d’ Óis da Ribeira
Eram só feitos de vime
E de vime de primeira
Destinavam-se à vindima
E à apanha da azeitona
Também chamados poceiros
Consoante a sua zona
Alguns dos seus fabricantes
Quando a campanha começa
Em casa dos lavradores
Faziam trabalho à peça
Vendiam-se até esteiras
Eram em Perrães fabricadas
Tinham muita utilidade
Eram muito procuradas
Nesse tempo as oliveiras
Tinham muita produção
E na apanha da azeitona
Eram espalhadas no chão
Até nalgumas casas
Com precárias condições
P’ra fazer compartimentos
Serviam p’ra vedações
Fabricantes de Perrães
Com habilidade sua
Fabricavam as esteiras
De bônho e atabua
Ao Domingo vinha à praça
O Resende de Óis da Ribeira
P’ra levar mercearia
Transportada de bateira
Seu patrão era o Martins
Que era muito conhecido
Como bom comerciante
Era assim abastecido
P’ra fazer a sua carga
Vinha logo de manhã
E a carga era feita
Junto à Auzenda Alemã
A Auzenda tinha uma tasca
Junto ao João Latoeiro
Tinha sempre boa pinga
E à porta um fogareiro
Tinha lá cachucho frito
Também havia coiratos
Havia enguias fritas
E preparava bons pratos
A sardinha de escabeche
Era este o seu pitéu
Na taberna que mais tarde
Foi da Glória do Xaréu
Mesmo junto ao André
O mercado da sardinha
Era coberto de chapa
E que linda graça tinha
Duas bancas paralelas
Numa base cimentada
Era ali nesse local
Que a venda se efectuava
A vender bonito peixe
E de qualidade fina
Estava a Palmira Morta
E também a Albertina
Com sardinha e com petinga
Tão bonita e tão boa
Estava a Eugénia Serrana
E a Elvira Sacristoa
Também estava o António Gago
E até a Preciosa
E a Maria da Luz
Com pescaria vistosa
Vendiam linda sardinha
Até chicharro de par
Petinga e navalhinha
E carapau a saltar
Eram rabos de sardinha
Nesse tempo bem salgada
Até sardinha amarela
Devidamente curada
A sardinha amarela
Tão gostosa e procurada
Havia quem lhe chamasse
Sardinha remelada
O António Pinheiro
E o Gaitas de Anadia
Qualquer deles era forte
E o mercado abastecia
Vinham de camioneta
Em correrias até
Às vezes de Matosinhos
De Peniche ou Nazaré
A vender o peixe grosso
Tão fresquinho a saltar
Estava ali o Guilherme
E a Maria Gaspar
Também a Ângela do Vale
Ali estava de manhã
Para fazer o mercado
Com a sua sócia irmã
O peixe vinha de Lisboa
Muito bem acondicionado
Vinha em caixas de madeira
Por comboio despachado
Com carro de duas rodas
Todos dias em geral
Ia o Guilherme à estação
Com a Maria do Vale
Traziam o fino peixe
Fresquinho quase a saltar
Com destino ao mercado
Para a venda efectuar
Linguado, e cachucho
Safio cherne e corvina
Raia, garoupa e pargo
E pescada da mais fina
Havia uma sardinheira
Assequins abastecia
Com a canastra à cabeça
Todo o lugar percorria
Como não sabia ler
Para saber a quem fia
Por sinais feitos no livro
Sabia quem lhe devia
A família ainda tem
Um livro com os risquinhos
Daquela a quem chamavam
Maria dos sinaizinhos
Vinha hortaliça de Aradas
E até de Verdemilho
Ainda de São Bernardo
Toda fresquinha com brilho
Vinha o Francisco José
E o António Pessegueiro
Ana Rosa e Zé Coelho
Com seu produto caseiro
Formavam-se enormes rimas
De bons nabos no mercado
Eram vendidos à dúzia
Para o povo interessado
Vendiam couves e grelos
E linda couve-flor
Que lindas pencas às vezes
E brócolos que eram um amor
Vinham em carros de bois
Da origem p’rós mercados
E é um caso curioso
Como eram transportados
O transporte era de noite
E o gado tão treinado
Vinha mesmo sem guião
Direitinho ao mercado
Num carro com a lanterna
P’ra presença assinalar
Vinha o dono a dormir
Tranquilo a descansar
Havia ali três tabernas
Com pinguinha de primeira
Era tirado da pipa
Mas directo p’rá picheira
Havia o copo pequeno
E também o de marquês
E até mesmo o penalty
Se bebia muita vez
O povo matava-o-bicho
Mesmo logo de manhã
Na tasquinha do Belmiro
Ou da Auzenda Alemã
Até Joana dos carros
Ali frente ao mercado
Tinha sempre bons petiscos
E vinho de bom agrado
O biquinho mais esquisito
Para ir mais longe arrisca
E vai mesmo ao Augusto Zica
Para beber um faísca
Quando Augusto se enervava
Ou havia confusão
O faísca da pipinha
Só saia por ração
Perto do Carlos Natal
Estava a loja do Afonso
Mas também do outro lado
O Pedro e o Ildefonso
Onde está o Sotto Mayor
O Pedro se divertia
Consertando bicicletas
Junto da tipografia
O tipógrafo Ildefonso
Trabalhava muito bem
Imprimia bons trabalhos
E até o "Águeda" também
Por cima do amigo Pedro
No andar número um
'Stava Bernardino Santos
Que era o Padre Balacum
Com depósito de milho
'stava ali o grémio também
Sendo seu administrador
O senhor Gomes de Serém
Vendiam-se até chapéus
Substituindo cartolas
E também belos bonés
E até boinas espanholas
Sachadeiras desse tempo
Usavam chapéus de palha
Uns eram de aba larga
E outros de fina palha
Os trabalhadores do campo
Todos eles em geral
Usavam estes chapéus
No seu trabalho rural
Manuel Alves Pereira
No tempo da minha infância
Fabricava bons chapéus
Com qualidade e elegância
Tinha na rua de cima
Um lindo estabelecimento
E ali os fabricava
Num outro compartimento
Quando ia para as feira
Que grande presença mete
Por fazer o seu transporte
Numa elegante Charrette
Era um carro elegante
E de animal tracção
Puxado por um cavalo
De toda a estimação
Ia fazer a Palhaça
A Moita e Aguada
Como Oliveira do Bairro
Sempre de linda montada
Rosalina Marques Maia
Há setenta anos idos
Já vendia os seus tremoços
Bonitos e bem curtidos
A sua filha Maria
Para o negócio começar
Pediu quatro tostões
Para os tremoços comprar
Os primeiros que vendeu
Não foi mal p’ra começar
Ganhou dois mil e quinhentos
Para uma saia comprar
A ti Maria dos tremoços
Mulher do Abílio Canas
Com os seus setenta anos
Bem do tempo das tricanas
Vestidinha a rigor
Com a canastra na mão
"Quem quer comprar tremoços"
Era assim o seu pregão
Com os seus setenta anos
Com a mesma animação
Vai p’rá a praça com tremoços
Com o seu carro-de-mão
Depois de demolhados
Os tremoços são cozidos
E demoram quatro dias
Para ficarem curtidos
Por não terem poluição
Os ribeiros antigamente
Eram ali postos em sacos
Bem expostos à corrente
Os sacos eram escondidos
Com uma pedra a assinalar
mas quando a malta os topava
Era um tal aviar
De Assequins ao Ribeirinho
Muitos sacos se encontrava
Naquela água tão pura
Que a sede nos matava
Havia uma tremoceira
Da terra do Ameal
Por sinal era ceguinha
Da quinta do morangal
Assadeiras de castanhas
Junto ao passeio alinhadas
Tinham-nas quentes e boas
Vistosas e bem assadas
Metidas numa assadeira
Sempre com sal bem mexidas
Embrulhadas em jornal
Eram à dúzia vendidas
Assou Maria do Carmo
E também a Cesaltina
A Esmeralda Barbosa
E Matari Josefina
Ainda Assunção do Arsénio
E a Maria Perdida
E quantas vezes à chuva
Para ganharem a vida
Muitas tabernas havia
Que à vila davam vida
Onde todos encontravam
Pinga boa e comida
Havia o Abel da Benta
Com vinho que era um amor
E até o João Moleiro
Chamado Carregador
Na tasca do Abel da Benta
Onde a carreira parava
Juntava-se lá muita gente
A gente que embarcava
No tecto da camioneta
À volta resguardada
Seguia toda a bagagem
Com uma corda amarrada
Os carros dos Azeitonas
Sempre limpos e afinados
De Aveiro ao Caramulo
Andavam sempre apinhados
Com a crise do petróleo
Em pleno tempo de guerra
Andavam a gasogénio
Mas lá subiam a serra
Quando o gás escasseava
Mas que grande frete tinha
O chauffeur parava o carro
Para dar à ventoinha
Uma fornalha redonda
Segura à parte de trás
Levava carvão a arder
Para conseguir o gás
Uma meia hora antes
Da camioneta partir
O carvão, estava a arder
Para o gás produzir
Era o senhor Olivette
Afamado cobrador
Toda a gente o respeitava
Por ser muito zelador
Com a falta da borracha
E mesmo das câmaras de ar
Enchiam pneus de palha
Para poderem andar
O bairro da Venda Nova
Estava bem apetrechado
Com a loja da serrana
E do Fausto Entrevado
Havia o "Cá-te-espero"
Junto ao São Sebastião
Com grande ramo de louro
Tinha muita agitação
Também a tasca do Hugo
Mesmo junto à estação
Aviava os clientes
À espera da embarcação
O vinho era afamado
Não havia coisa igual
Porque tinha grande mestre
Senhor António Pinhal
Em frente ao hospital
Onde está o dispensário
Havia uma taberna
Que era do Elisiário
Vendia lá bons leitões
E ao Domingo em geral
Tinha boa clientela
De visita ao hospital
A Zínia perto da fonte
Num ambiente caseiro
Servia lá bons petiscos
E Chouriças do fumeiro
Fazia também a praça
Com bons porcos que matava
E até Glória Macaca
Era a sua empregada
No número oitenta e oito
Com a vida no seu final
Saíram-lhe oitenta contos
Na lotaria nacional
A loja do carregador
Junto à farmácia Amaral
Servia lá os moleiros
Que vinham do Ameal
As argolas nas paredes
Mesmo em frente à sua venda
Eram para prender os burros
Carregados de moenda
Passava lá uma burra
Que fazia contestação
Se não lhe dessem umas sopas
Feitas de vinho e de pão
A burra de que vos falo
Que só assim se acalmava
Era uma burra afamada
Era a Balcória do Fava
Havia ainda o Sousa
Havia o Guilherme Guerra
E também o tanoeiro
E o amigo Zé Serra
Vinham de Castelo Branco
Em cavalos bem tratados
Com palha em cestos metidos
Queijos da serra curados
Queijeiros vindos da serra
Com dificuldades tantas
Só traziam pr’ agasalho
Apenas algumas mantas
Eles vinham de muito longe
Andando de terra em terra
Demorando muitos dias
Até voltarem à serra
De Fornos e Celorico
De lá vinham outros também
Com queijinhos amanteigados
Que fama tinham também
O senhor Carlos Bragança
E Manel Paixão, os dois
Vinham vender couve ao centro
Com os seus carros de bois
Também o João Serrano
Vindo de Aveiro, Aradas
Trazia no seu cavalo
Onde eram transportadas
Um dia ele teve azar
E o cavalo assustado
Caiu numa ribanceira
Ficou todo espatifado
O cavalo e o Serrano
Ficaram os dois feridos
Mas em breve recuperaram
Continuando os dois unidos
Vende em Águeda há meio século
Ainda hoje aqui vem
Com uma clientela antiga
Ainda vende muito bem
A Albertina Tavares
Ao mercado de Águeda afecta
Vinha com o seu marido
Os dois de bicicleta
Com uma grande carga atrás
Quando a couve transportava
Ao sair da bicicleta
Ela até empinava
De Pinheiro da Bemposta
P’ra evitar a bicicleta
Mais tarde lá resolveram
A vir de camioneta
Vinha na dos Oliveiras
Era fácil muito mais
E até lá pernoitavam
Send’ amigos pessoais
Homens da marionetas
De bonecos bem espertos
Também vinham ao mercado
Com os chamados Robertos
Bonecos manipulados
Dentro duma vedação
Encantavam os pequenos
Dando-lhes satisfação
Ao acabar o trabalho
Com graça e animação
Faziam um peditório
Com uma boina na mão
Apareciam barracas
Com os jogos de panelas
Eram lindas de alumínio
E tudo gostava delas
Traziam jogos de tachos
De cafeteiras também
E calhavam por sorteio
A quem acertasse bem
Toda a gente as pretendia
E por gostar tanto delas
Era muito concorrida
A barraca das panelas
Tinham lá mesmo ao meio
Três roletas penduradas
E quando elas giravam
Eram séries sorteadas
Ali à volta das barracas
Juntavam-se multidões
Comprando a sua série
Apenas por dez tostões
Com a ideia das panelas
Um dia eu me tentei
E apenas com um bilhete
No número exacto acertei
E uma pessoa rica
Convenceu a minha mãe
A vender as panelinhas
E que lhas pagava bem
A minha mãe lá cedeu
Depois de um pouco pensar
Dava mais jeito o dinheiro
Para o pão nos comprar
Fazia venda na praça
A moleira Anunciação
Com Farinha de milho, trigo
E mistura para o pão
Quando chegava ao Botaréu
Com os burros carregados
Numa pedra junto ao rio
Eram ali amarrados
Os burros que trazia
Como tinham de esperar
Apareciam voluntários
Para os levar a pastar
Eles grandes malandrecos
Em vez de os por a pastar
Andavam toda a manhã
Com eles a cavalgar
Mesmo junto ao Botaréu
Era aí o picadeiro
Montava o Jaime Marques
E o Zé Júlio Ribeiro
Cavalgava o Quim Moina
E o Firmino Gaspar
Depois vinha o João Júlio
Todos queriam montar
O Elói era o mais novo
Na arte de cavalgar
Um dia montou um burro
Mas foi um dia de azar
Quando se sentou na albarda
Armado em sabichão
O burro deu dois pinotes
E pregou com ele no chão
Até mesmo o João Fuso
Com seu ar de malandrão
Montava os pobres burros
Era a sua distracção
O José Júlio Ribeiro
Com o Fuso à batatada
Atingido com uma pedra
Ficou de testa rachada
Parece que ainda se nota
A marca no deputado
Porque o Jogo aziago
Ficou sempre assinalado
E os pobres do dois burros
Sem ter tempo p’ra pastar
Voltavam à sua dona
Sem ponta d’erva tragar
A velha Anunciação
Que a cena desconhecia
Com palavras de ternura
Ainda lhes agradecia
A tia Anunciação
Era uma linda figura
Com um lenço na cabeça
E um pano à cintura
Trazia uma carteira
Em forma de coração
Com pano de muitas cores
E linda apresentação
Ali metia os trocados
Da venda ou da maquia
Andando sempre com ela
No avental todo o dia
Havia tendas da roupa
Em frente ao Carlos Natal
Vendiam lá cobertores
E toda a roupa em geral
Vendiam pano a metro
E riscado da tabela
Com a cor verde e vermelha
Bem destacada na aureola
Tinham lá xailes grossos
E mais finos de marino
Para as senhoras mais ricas
P'ra um aspecto mais fino
Vendiam cuecas, ceroulas
Corpetes e aventais
Tudo isto executado
Em trabalhos manuais
As mulheres da roupa feita
Num trabalho feito à mão
Percorriam os mercados
Com a sua confecção
Lá iam de bicicleta
Ao sol, à chuva e ao vento
Com o fardo no suporte
Era assim o seu tormento
Percorria muitas feiras
A Ludovina Balreira
Com a Clara de Paredes
E a Maria Pereira
Também a Dália Natal
Ainda sem armazém
Andava com roupas feitas
De feira em feira também
A ti Glória Chula
De costura percebia
Andava de casa em casa
A fazer trabalho ao dia
Tinha fama o seu trabalho
Toda a gente a procurava
Era muito despachada
O seu trabalho agradava
Nos serões e horas vagas
Às vezes noites inteiras
Preparava mais trabalhos
Para levar para as feiras
Levava bicicleta
Com o seu fardo atrás
Às vezes com trinta quilos
E até por estradas más
Mais tarde veio o Júlio
Que transporte efectuava
Com camioneta de carga
E as feirantes levava
Seguiam na camioneta
Nos seus bancos laterais
Iam sempre aos solavancos
Com barulhos infernais
E a ti Glória Chula
Por não haver infantário
Levava o seu filho Egberto
Tinha isto por fadário
Ele ia numa canastra
Que era o berço dos pobres
E quantos nelas dormiam
Com sentimentos tão nobres
O rapaz da minha rua
Que hoje vive tão bem
Já comeu o pão amargo
Que não fez mal a ninguém
O Egberto ia no carro
Pelas tendeiras guardado
Era o menino das bruxas
E por todos adorado
Havia fruta na praça
Mas fruta da ocasião
Não havia frigoríficos
P'rá a sua conservação
Vendia ali a Matilde
A Amélia e a Margarida
Eram mulheres agitadas
No seu princípio de vida
O Zé e a Maria Augusta
Também vinham ao mercado
Num carro de duas rodas
Por um burrinho puxado
Ao fazer a sua venda
E a praça estar acabada
Regressavam a Arrancada
Com a venda efectuada
Apareceu a Matilde
Na praça um pouco mais tarde
Com diversas novidades
Importadas do Algarve
Vinham de Luz de Tavira
De Boliqueime e de Olhão
Também d’Armação de Pêra
Que era boa região
A Isaura da Bicha-Moira
Era mulher muito calma
Foi sempre de boas contas
Que Deus lhe fale na alma
O ti João das batatas
Marido e bom companheiro
Tinha também seu negócio
E ganhava algum dinheiro
Negociava batatas
Até milho e feijões
Percorria muitas feiras
Para vender os leitões
Também vinha de Paredes
Banana que era um amor
Vendida ali no mercado
Mas pelo João Feitor
Este feitor foi meu sócio
E a nossa separação
Teve origem na desgraça
Da morte de seu irmão
Custou cento e vinte escudos
O nosso carro de mão
Para servir de transporte
Foi primeira aquisição
Belarmina a mais antiga
Eu dela me lembro bem
Tinha já bastante idade
Negociava também
Vendia no caramulo
Sempre artigo do mais fino
Mesmo junto ao fontanário
Bem perto do Flausino
Ao chegar a camioneta
Sem ter loja nem ter tenda
Era no meio da rua
Que fazia a sua venda
Vendia p'ra muitas casas
Até mesmo refeitórios
Mas a sua maior venda
Era para os sanatórios
Havia uma frutaria
Que abasteci muita vezes
Era do António Chibeiro
E da companheira Inês
A sua loja de venda
Abria bastante cedo
Era perto do Sabino
Rua Ferraz de Macedo
Tiveram ainda uma outra
Em frente à tesouraria
Que foi cedida ao Euclides
Pr'á sua papelaria
Também a Lurdes da fruta
Junto ao Ernesto Ruela
Tinha sempre boa fruta
Fruta vistosa e bela
De fronte a ela a ti Márcia
Que a falar não gagueja
Vendia ali lenha à dúzia
E molhinhos de carqueja
Também tinha bons ovos
Havia bom cereal
Na lojinha instalada
Onde está a Foto Central
Pr'a comer com bom conforto
Carne, peixe ou coisas mais
Só numa casa afamada
Era a pensão do Morais
Também tinha mercearia
E no dia do mercado
Tinha muito movimento
Mas era tudo aviado
O açúcar e o arroz
Na véspera era ensacado
Em cartuchos de papel
Era tudo bem pesado
Vendia sabão à barra
Açúcar, arroz e massa
Também lá vendia velas
E até sabão de potassa
À dúzia vendia ovos
Fresquinhos, vindos da serra
Vendia o arroz corrente
E o gostoso arroz da terra
O café tinha um cheirinho
Era uma consolação
E seguia para o cliente
Moído na ocasião
O azeite tão gostoso
Para a sua clientela
Lá saía de uma máquina
Movida por manivela
Havia uma pensão
Mesmo à entrada da Cancela
Era muito concorrida
Tinha muita clientela
Era a Pensão Barata
Onde está o Ribeirinho
Seus clientes era Sargentos
Onde encontravam carinho
Já lá vão quarenta anos
'Inda lembro o seu labor
E até das pedras lindas
Que tinha no corredor
Também a Pensão Matilde
Com muita apresentação
Aviava muita gente
À hora da refeição
Tinha Sargentos diários
Que andavam a estudar
À procura de um galão
Para a vida melhorar
Anexo tinha taberna
Com petiscos sempre à mão
E uma seira de figos
Sempre comidos com pão
Tinha ainda bons tremoços
E amendoins torrados
Havia iscas de fígado
E chicharro aos bocados
Até o cachucho frito
Que era muito apreciado
Talvez por ser mais barato
Era muito procurado
Havia outra pensão
Que sempre bem nos servia
Era do Augusto Zica
E da esposa , senhora Gia
Tinha cozinha de luxo
Com grande fogão de lenha
Servia lá muita gente
Fosse da terra ou estranha
De fronte a Casa Santos
Com toda a sua grandeza
Era o café mais chique
Com muito luxo e beleza
Tinha clientela fina
Com gente com distinção
Onde comia pastéis
E tomavam o seu galão
Tinha café afamado
Nas mesas açucareiro
Os pastéis à meia dúzia
Na troca de algum dinheiro
O café feito e coado
Na máquina era metido
Com fogareiro a petróleo
Estava sempre aquecido
Ao fundo tinha um salão
Onde a noite iam passar
Os meninos da elite
Que gostavam do bilhar
Tinha sempre boa pinga
De se tirar o chapéu
Com a sua marca própria
Eram os Vinhos Botaréu
Tinha mercearia fina
E uma pastelaria
Com pastéis do seu fabrico
Que muita gente atendia
No Natal o Bolo Rei
Com tal movimentação
A gaveta de tão cheia
Caía a nota pr'ó chão
Tinha fama o pão-de-ló
Aveludado e mimoso
Era muito apreciado
Por ser bonito e gostoso
Em cima tinha pensão
Com serviço de primeira
E um salão muito chique
Decorado a madeira
Havia móveis na sala
De uma arte invulgar
Com madeira trabalhada
E espelhos a rematar
Na cozinha que era grande
Com luxo e bem montada
Era com grande limpeza
Comida confeccionada
Em cima tinha os quartos
Muito limpos, bem montados
E por Sargentos estudante
Eram muitos ocupados
Até muito viajante
Por ter boa recepção
Quando chegavam a Águeda
Procuravam esta pensão
De fronte à velha praça
Onde muito bem se trinca
Havia uma pensão
Que era da Maria Brinca
Tinha cozinha esmerada
Fazia boa comida
Muita gente a procurava
Pela fama conseguida
Alugava alguns quartos
Era residencial
E todos ali dormiam
Ninguém se sentia mal
Junto tinha uma taberna
Para matar a sequeira
A quem bebia o seu tinto
Servido de uma picheira
Havia ali bons petiscos
Sempre quente a sair
E pipas encanteiradas
Para pinguinha servir
Todas as tabernas tinha
As medidas aferidas
Pr'a fazer a medição
Caso fossem exigidas
O senhor Júlio Nápoles
Pr' aviar não tinha jeito
Embora de poucas falas
Impunha muito respeito
Era o proprietário
Da casa com tanta fama
E que hoje tem por nome
A Pensão Vasco da Gama
Junto aos Paços do Concelho
A Pensão Comercial
Servia ali os Sargentos
E todo o povo em geral
E na loja do Barão
Muita coisa se vendia
Com enorme movimento
A vender mercearia
Tinha quase sempre à porta
Uma coisa muito gira
Era o polvo em cestinhos
Importado de Tavira
Era uma casa diferente
Tinha muitas coisas mais
E era especializada
Em solas e cabedais
Vendia muitos artigos
Em certas ocasiões
Até ali se vendia
O chumbo para caixões
Tinha na sua gerência
Pessoas conceituadas
E operações bancárias
Eram ali efectuadas
Máquinas registadoras
Com muita apresentação
Tinha uma a Casa Santos
E tinha outra o Barão
Eram peças de museu
Lindas, bem trabalhadas
Movidas por manivela
Para ser movimentadas
E num grande mostrador
A conta apresentavam
Fazendo barulho a abrir
As campainhas tocavam
O Eugénio Regedor
Tinha uma mercearia
Vendia lá bom café
Que no momento moía
A moagem manual
Era uma coisa bela
Numa máquina gigante
Movida por manivela
Ele vendia sapatilhas
Anilina, até graxa
Bonecas de celulóide
E sapatos de borracha
Havia bons armazéns
De mercearia e afins
Como o armazém da fábrica
Na estrada de Assequins
Armazém do Encarnação
E muitos mais nós tivemos
Foi o Antero Varanda
E também o João Lemos
A casa do Simões Dias
Era um armazém completo
Sendo bem orientado
Pelo empregado Anacleto
O Grémio tinha armazém
Á entrada da cancela
Onde tinha os adubos
Para a sua clientela
Quando aviavam os clientes
Empregados a servi-los
Carregavam aos seus ombros
Grandes sacos de cem quilos
O armazém do milho
Deste belo cereal
Era perto do barril
Junto ao Carlos Natal
Na casa da baronesa
Com bastante animação
Havia um armazém
Que pertencia ao Barão
Com a sua hanomag
Fazia a distribuição
Percorrendo as aldeias
Com calma, sem confusão
Mesmo na Rua de Cima
Um bom armazém tivemos
Tinha artigos variados
Era o do João Lemos
O amigo Manuel
Tinha agitado a missão
Andava com o senhor Lemos
Sempre na distribuição
Nesse tempo as bolachas
Eram em latas metidas
Vinham mesmo a granel
E assim eram vendidas
Havia rimas enormes
Dentro do seu armazém
De diversas qualidades
Que se vendiam tão bem
O armazém do Simões Dias
Vendia muitos artigos
Na rua Ferraz de Macedo
Há sessenta anos idos
Senhor António Vieira
O primeiro encarregado
Era um homem muito activo
Trabalhador dedicado
Depois veio o senhor Artur
Ao trabalho muito afecto
Que mais tarde deu lugar
Ao senhor Anacleto
Nesse tempo os adubos
Para serem transportados
Eram em carros de cavalos
Possantes e bem tratados
Por estarem ultrapassados
E para mais tonelagem
Acabaram com os cavalos
Compraram um Volkswagen
Mais tarde o amigo Artur
Um outro carro conduz
Com um furgão mais robusto
De marca Ford Taunus
Como agente da CUF
Era o mais forte armazém
Vendia muitos adubos
E revendia também
Os sacos eram pesados
E nessa missão amarga
O Manuel Jeitosinho
Fazia sempre a descarga
Só por um litro de vinho
Um dia uma aposta fez
Carregar duzentos quilos
Apenas, só de uma vez
Conseguiu ganhar a aposta
Esse homem que era valente
Que por ganhar a garrafa
Ficara todo contente
O lindo Café Jardim
Com o pátio sevilhano
Vendia boa cerveja
Em todos os meses do ano
O senhor Álvaro Lima
Era ali encarregado
E como era brioso
Trazia tudo esmerado
No andar número um
Com a sala de bilhar
Juntava lá a mocidade
À espera para jogar
No pátio sevilhano
Às vezes fados havia
Ou até ilusionismo
Que o povo divertia
Andava um homem na rua
Para ele era um regalo
Apregoando em voz alta
Olha o remédio pr'ó calo
Geralmente andava a pé
O homem de que vos falo
Com o seu forte pregão
Também dizia "é pr'ó calo!"
Vinha gente da torreira
Pr'a vender as camarinhas
Transportadas em posseiros
E vendidas às cestinhas
E com cestos muito grandes
Mulheres com muita graça
Vinham vender as regueifas
Andando à volta da praça
Vendiam mesmo na rua
E até davam a prova
Dessas regueifas tão boas
De Albergaria-a-Nova
Andavam até mercadores
De peles de coelho e lã
Apareciam ao Domingo
Geralmente de manhã
Compravam peles de coelho
Ferro velho, até sarro
Andavam de bicicleta
Porque poucos tinham carro
As velharias e a lã
Eram ao quilo pesadas
Numa balança de mola
Onde eram penduradas
De seu nome dinamómetros
Tão fáceis de transportar
Tinham uma grande mola
Para o peso controlar
Onde está o João Latoeiro
Que consolador cheirinho
Da broa que ali vendia
A Glória do Casaínho
P'ra fazer as suas compras
Por não saber escrever
Apontava com risquinhos
Quem lhe ficava a dever
E ninguém a enganava
Nas continhas que fazia
Mesmo sem a tabuada
A fazê-las se entendia
Ela vendia farinha
Mesmo em pequenas porções
E até gostosas padas
Apenas por dois tostões
Um dia o amigo Burrinha
Actuando um pouco à toa
Foi a loja da ti Glória
Para lhe pesar a broa
Disse logo não ter peso
E com instinto do mal
Envolveu-a num processo
E levou-a a tribunal
Foi no tribunal do porto
Toda a broa conferida
Como tinha peso a mais
Ela foi absolvida
Ficou mal o funcionário
Amante da escravidão
Que às vezes aos pontapés
Espalhava tudo no chão
Se alguém não tinha senha
Às vezes por esquecimento
Era logo tudo preso
E levado no momento
Um dia o pobre Foguete
Achou dez mil reis no chão
Foi obrigado a entregá-los
Ameaçado de prisão
Passava um senhor na praça
Que metia aflição
Com a cabeça abaixada
E os olhos postos no chão
Era o senhor Luís Teosa
Homem rico e de bens
Que andava há cinco anos
A procurar dois vinténs
Tinha perdido a moeda
Ali mesmo no mercado
E na fé de os encontrar
Andava sempre abaixado
Aos domingos de canastra
De açafate ou posseiro
Vinha gente lá da serra
Ocupando o dia inteiro
Era novo e bem me lembro
Há tantos anos atrás
Só trazia dez escudos
A tia Rosa do Braz
Levava um cesto cheio
Cinco mil metros a andar
Quase sempre descalça
Até a casa chegar
Comprava boa hortaliça
E o carapau do mar
Lindos rabos de sardinha
Até chicharro de par
E como era Domingo
Para nossa consolação
Também levava consigo
Umas padinhas de pão
Do lugar de Assequins
P'ra ganhar algum dinheiro
Quando o calor apertava
Vinha o Abel sorveteiro
Seu transporte era um triciclo
Por pedais movimentado
Sentadinho no selim
Era tudo despachado
Apareciam cauteleiros
Alguns de grande perfil
Era o amigo Paradela
E o Carlos de Arganil
Vinha o Jorge de Coimbra
E o Arnaldo de lá vem
Como o amigo José Carlos
A vender jogo também
O Arnaldo de Mouquim
O Gomes de Oliveirinha
E até o senhor Albino
Que na lapela sempre as tinha
Havia casa de fazendas
Dos mais modernos padrões
Eram expostas em peças
Com destino a confecções
O Camossa era o mais forte
Em montras era o primeiro
Havia o Carlos Natal
Almeidas e senhor Ribeiro
O Almeida das fazendas
Homem com grande perfil
Também vendia passagens
Para África e Brasil
O empregado, senhor Alfredo
Tinha muita simpatia
Era homem de respeito
E muita gente atendia
Por se ter estabelecido
Esse homem sempre sem falhas
Ocupou o seu lugar
O senhor Luís das Malhas
O senhor António Almeida
Vendia também passagens
Para África e Brasil
E até outras paragens
A Madalena Balreira
Acarretava o correio
Com o seu carro de mão
Não havia outro meio
Ir à estação quatro vezes
Era a sua penitência
Trazia sacos fechados
Cheios de correspondência
Nas noites frias de Inverno
Que sacrifício ela fez
Esperar com paciência
Pelo comboio das dez
E assim durante anos
Foi o trabalho que fez
Para vencer o ordenado
De quinze escudos por mês
Farmácias cá na vila
Havia três afinal
Era a Vidal era a Ala
E a farmácia Amaral
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Fernando Caldeira
Fernando Caldeira foi grande Poeta
Escreveu comédias com muita mestria
Como "Mantilha de Renda" e "Varina"
Levadas à cena no "Dona Maria"
Ainda na Capital a "Madrugada"
Deixou o nome do Poeta bem gravada
Que interpretada ali por bons actores
Deixou o povo de Lisboa apaixonado
Foi Director do "Diário da Manhã"
Também Deputado às cortes três vezes
Ainda Governador Civil de Aveiro
E dirigiu o jornal "Tempo" alguns meses
Como redactor da Câmara dos Pares
Ele impôs o seu valor mais uma vez
Tendo sido nomeado em Março
De mil oitocentos e oitenta e três
Colaborou no "Diário da Manhã"
Sendo dele o seu Director literário
Trabalhando ao lado de Pinheiro Chagas
Grande colaborador deste Diário
No campo dramático foi notável
Deixando-nos "Medicas","Sara","Nantas"
Publicou "Sapatinhos de Cetim"
E ainda "Fló Fló" e obras tantas
Escreveu "Madrugada" e "Varina"
"Chilena", "Nadadores", " Missionários"
Publicou ainda "Mantilha de Renda"
E escreveu também Poemas vários
Colaborou no "Escola Popular"
Primeiro jornal em Águeda publicado
Escreveu nele, era ainda estudante
Poemas líricos que deram brado
Veio a morrer bem novo este Poeta
Que à Casa da Borralha pertenceu
Deixando-nos obras de grande valor
Que a historia de Águeda tanto enriqueceu
Águeda 1996
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
Escreveu comédias com muita mestria
Como "Mantilha de Renda" e "Varina"
Levadas à cena no "Dona Maria"
Ainda na Capital a "Madrugada"
Deixou o nome do Poeta bem gravada
Que interpretada ali por bons actores
Deixou o povo de Lisboa apaixonado
Foi Director do "Diário da Manhã"
Também Deputado às cortes três vezes
Ainda Governador Civil de Aveiro
E dirigiu o jornal "Tempo" alguns meses
Como redactor da Câmara dos Pares
Ele impôs o seu valor mais uma vez
Tendo sido nomeado em Março
De mil oitocentos e oitenta e três
Colaborou no "Diário da Manhã"
Sendo dele o seu Director literário
Trabalhando ao lado de Pinheiro Chagas
Grande colaborador deste Diário
No campo dramático foi notável
Deixando-nos "Medicas","Sara","Nantas"
Publicou "Sapatinhos de Cetim"
E ainda "Fló Fló" e obras tantas
Escreveu "Madrugada" e "Varina"
"Chilena", "Nadadores", " Missionários"
Publicou ainda "Mantilha de Renda"
E escreveu também Poemas vários
Colaborou no "Escola Popular"
Primeiro jornal em Águeda publicado
Escreveu nele, era ainda estudante
Poemas líricos que deram brado
Veio a morrer bem novo este Poeta
Que à Casa da Borralha pertenceu
Deixando-nos obras de grande valor
Que a historia de Águeda tanto enriqueceu
Águeda 1996
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Águeda e Marnel
Se Emínio não foste Águeda minha
Essa cidade romana tão falada
Que te importa toda a fama que ela tinha
Se as águias te traziam subjugada
Seriam os Celtas os Túrdulos ou os gregos
A fundá-la assim tão imponente
Como Talábrica aqui perto sepultada
A confundir o pensar de muita gente
É Coimbra desfazer o nosso sonho
Ali bem perto da vila de Condeixa
Foi aí que esteve Emínio Implantada
Porque uma lápide dúvidas não deixa
Assim cidade de Águeda e do Vouga
Comungando a sua história igual papel
Se Vouga nos pertence e tanto nos honra
A história de Águeda começa no Marnel
Mil anos antes de Cristo, o Marnel
Era uma terra bastante ambicionada
Os fenícios a procuram rio acima
Fazendo do rio Vouga sua estrada
Pelo seu grande valor dele falaram
Grandes homens de valor e grande fama
Dele falou Antonino Pio e Plínio
Ao evocar esta terra lusitana
Legiões de Roma por aqui passaram
Tantas vezes acampadas no Marnel
E quantos imperadores te visitaram
Fundando junto a ti castros a granel
Foi aqui que viveram grandes senhores
Com fama, com valor e valentia
Honraram-te Ero, Sousas e Ederquínas
E Eben Egas com a sua fidalguia
Nascido na desaparecida Aurunca
Era filho de Algira e Aires Manuel
São Martinho que foi cónego em Soure
E que foi chamado o mártir do Marnel
Almansor ministro de Hissen segundo
Com todo o seu poderio e grandeza
Ataca a igreja onde estava S. Martinho
Que foi confiada a ele por D. Teresa
Martinho foi capelão dos templários
Lutou com eles, nunca desvaneceu
Foi preso pelos tão cruéis Agarenos
E martirizado em Córdova, onde morreu
Fugindo às leis de Trava, Nendo Fernandes
A Guimarães, com bravura, vai lutar
Enfrenta Afonso sétimo de Leão
Fazendo Afonso Henriques triunfar
Ali começou a nascer Portugal
Com a ajuda desse homem tão fiel
Nendo Fernandes que foi grande senhor
Ilustre conde e Fidalgo do Marnel
Foi destroçando de Soult os sonhos seus
Que as milícias do Marnel fizeram história
Derrotam os franceses, matam Lameth
E ajudam Welesley a cobrir-se de glória
O Batalhão Académico de Coimbra
Por Francisco de Albuquerque comandado
Com tropas de Trant chegam a Serém
Juntam-se às do Vouga, lutam a seu lado
Napoleão sofre aqui mais um desaire
Deixa rasto de derrota onde chegou
As suas tropas recuam para a Galiza
E ser rei Soult foi sonho que passou
Vindos da Cruz de Mourouços, os liberais
Enfrentaram as tropas de D. Miguel
É episódio sangrento junto ao Vouga
Que veio fazer mais história do Marnel
A existência Celta de há milénios
Deixa por aqui passagem bem marcada
São os dólmenes a atestar uma verdade
que pelo Vouga ficou documentada
O mesmo aconteceu no Cértima e em Espinhel
Com seus dólmenes por ali espalhados
A marcar bem a sua presença ali
Desses povos já bastante civilizados
Castros havia por aqui espalhados
A desempenhar também grande papel
Como o Crasto, Crastovães e Cristelo
E ainda o afamado do Marnel
Imensos povos por aqui estiveram
Como fenícios, gauleses, germanos
Iberos, celtas, godos, árabes gregos
E ainda o grande povo dos romanos
Marnel, termo árabe que quer dizer
O mesmo que lamaçal ou alagadiço
E porque o mar ali o vinha beijar
Deu o nome a Lamas talvez por isso
A presença de areias, búzios e conchas
Que pela zona se notam tantas vezes
Vem comprovar que em tempos mais remotos
As ondas do mar chegavam a Lanheses
Os navegantes que por ali passaram
Na mira de negócios tantas vezes
Utilizavam grandes barcos talvez lanchas
E daí denominados os lancheses
Seria assim o seu primitivo nome
Lancheses, porto velho e acolhedor
Hoje uma pequena aldeia de Valongo
Com aspecto verde e encantador
Muitas vilas do Marnel tiveram fim
Mas o seu nome, esse não se esquece nunca
Como Arraval, Ferejanes e Melares
Belhe, Palatiolo, Paçô e Aurunca
Reminense Argimines teve aqui bens
Que legou ao mosteiro de Ferreirós
Entregou a religiosos de S. Bento
Que nesse tempo viviam entre nós
Bispo da Guarda, D. Martinho Pais
Um homem de valor e muito talento
Também teve aqui herdados alguns bens
Que os veio a legar a um convento
Mosteiro de Santa Maria, paróquia
Desse povo do Marnel que era cristão
Legou-o a S. Salvador de Viseu
D. Ederquina por sua devoção
Possuindo o Duque D. Gonçalo Mendes
Mesmo em Lamas um terço por quinhão
No ano de novecentos e oitenta e um
O entregou ao mosteiro do Lorvão
No ano de mil e setenta e sete
Era de Pelágio Gonçalves, o Marnel
Possível filho de Gonçalo Viegas
Militar que teve aqui grande papel
Em setecentos e onze os Agarenos
Atacaram com violentas fúrias
Vencem a batalha de Covadonga
E vêm formar o seu reino nas Astúrias
E galgando a Península Ibérica
Arrasando igrejas, praticando o mal
Atacam Recardães, Travassô e Lamas
E a igreja de Aguada, no Passal
Cercado de muralhas já seculares
Era tão lindo o Marnel e tão mimoso
Que tão encantado o autor luso épico
Lhe veio a chamar "Castro Formoso"
Até mesmo o D. Pedro das Linhagens
Que em Brunhido viveu no seu Paçô
Nos fala do Marnel nos seus escritos
Por ser terra que bastante admirou
O Marnel com seus outeiros verdejantes
Que um rio faz questão de vir beijar
Tem mesmo a norte terras de Mesão Frio
Que nome a Albergaria vieram dar
A igreja de Santa Maria de Lamas
Que pelos Agarenos foi arrasada
É reconstruída em mil cento e setenta
Pelo Bispo de Coimbra foi sagrada
Era em Roma de basílica apelidada
Pelas grandes riquezas que ela continha
Como as relíquias do sepulcro de Cristo
De S. Sebastião e Santa Marinha
Ainda as de Gordiano e Apímaco
Também do sepulcro de Santa Maria
Os do mártir Felicíssimo e Agapito
Tudo isto a igreja enriquecia
Emínio era uma extensa diocese
E muitas terras faziam parte dela
Como as de Coimbra, Seia e Vouga
E ainda a acastelada de Penela
As vias romanas de Plínio faladas
Que por esse grande povo foram feitas
Deixam marcas bem patentes no Reigoso
E nos marcos milenários das Benfeitas
A capelinha do Espírito Santo
Onde o povo vai rezar com devoção
Na presença Celta ou talvez romana
Já se praticava ali culto pagão
As relíquias de Gordiano e Apímaco
Que o povo de Lamas quis ceder
Deram início à igreja de Santa Cruz
Que D. Afonso Henriques mandou fazer
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
Essa cidade romana tão falada
Que te importa toda a fama que ela tinha
Se as águias te traziam subjugada
Seriam os Celtas os Túrdulos ou os gregos
A fundá-la assim tão imponente
Como Talábrica aqui perto sepultada
A confundir o pensar de muita gente
É Coimbra desfazer o nosso sonho
Ali bem perto da vila de Condeixa
Foi aí que esteve Emínio Implantada
Porque uma lápide dúvidas não deixa
Assim cidade de Águeda e do Vouga
Comungando a sua história igual papel
Se Vouga nos pertence e tanto nos honra
A história de Águeda começa no Marnel
Mil anos antes de Cristo, o Marnel
Era uma terra bastante ambicionada
Os fenícios a procuram rio acima
Fazendo do rio Vouga sua estrada
Pelo seu grande valor dele falaram
Grandes homens de valor e grande fama
Dele falou Antonino Pio e Plínio
Ao evocar esta terra lusitana
Legiões de Roma por aqui passaram
Tantas vezes acampadas no Marnel
E quantos imperadores te visitaram
Fundando junto a ti castros a granel
Foi aqui que viveram grandes senhores
Com fama, com valor e valentia
Honraram-te Ero, Sousas e Ederquínas
E Eben Egas com a sua fidalguia
Nascido na desaparecida Aurunca
Era filho de Algira e Aires Manuel
São Martinho que foi cónego em Soure
E que foi chamado o mártir do Marnel
Almansor ministro de Hissen segundo
Com todo o seu poderio e grandeza
Ataca a igreja onde estava S. Martinho
Que foi confiada a ele por D. Teresa
Martinho foi capelão dos templários
Lutou com eles, nunca desvaneceu
Foi preso pelos tão cruéis Agarenos
E martirizado em Córdova, onde morreu
Fugindo às leis de Trava, Nendo Fernandes
A Guimarães, com bravura, vai lutar
Enfrenta Afonso sétimo de Leão
Fazendo Afonso Henriques triunfar
Ali começou a nascer Portugal
Com a ajuda desse homem tão fiel
Nendo Fernandes que foi grande senhor
Ilustre conde e Fidalgo do Marnel
Foi destroçando de Soult os sonhos seus
Que as milícias do Marnel fizeram história
Derrotam os franceses, matam Lameth
E ajudam Welesley a cobrir-se de glória
O Batalhão Académico de Coimbra
Por Francisco de Albuquerque comandado
Com tropas de Trant chegam a Serém
Juntam-se às do Vouga, lutam a seu lado
Napoleão sofre aqui mais um desaire
Deixa rasto de derrota onde chegou
As suas tropas recuam para a Galiza
E ser rei Soult foi sonho que passou
Vindos da Cruz de Mourouços, os liberais
Enfrentaram as tropas de D. Miguel
É episódio sangrento junto ao Vouga
Que veio fazer mais história do Marnel
A existência Celta de há milénios
Deixa por aqui passagem bem marcada
São os dólmenes a atestar uma verdade
que pelo Vouga ficou documentada
O mesmo aconteceu no Cértima e em Espinhel
Com seus dólmenes por ali espalhados
A marcar bem a sua presença ali
Desses povos já bastante civilizados
Castros havia por aqui espalhados
A desempenhar também grande papel
Como o Crasto, Crastovães e Cristelo
E ainda o afamado do Marnel
Imensos povos por aqui estiveram
Como fenícios, gauleses, germanos
Iberos, celtas, godos, árabes gregos
E ainda o grande povo dos romanos
Marnel, termo árabe que quer dizer
O mesmo que lamaçal ou alagadiço
E porque o mar ali o vinha beijar
Deu o nome a Lamas talvez por isso
A presença de areias, búzios e conchas
Que pela zona se notam tantas vezes
Vem comprovar que em tempos mais remotos
As ondas do mar chegavam a Lanheses
Os navegantes que por ali passaram
Na mira de negócios tantas vezes
Utilizavam grandes barcos talvez lanchas
E daí denominados os lancheses
Seria assim o seu primitivo nome
Lancheses, porto velho e acolhedor
Hoje uma pequena aldeia de Valongo
Com aspecto verde e encantador
Muitas vilas do Marnel tiveram fim
Mas o seu nome, esse não se esquece nunca
Como Arraval, Ferejanes e Melares
Belhe, Palatiolo, Paçô e Aurunca
Reminense Argimines teve aqui bens
Que legou ao mosteiro de Ferreirós
Entregou a religiosos de S. Bento
Que nesse tempo viviam entre nós
Bispo da Guarda, D. Martinho Pais
Um homem de valor e muito talento
Também teve aqui herdados alguns bens
Que os veio a legar a um convento
Mosteiro de Santa Maria, paróquia
Desse povo do Marnel que era cristão
Legou-o a S. Salvador de Viseu
D. Ederquina por sua devoção
Possuindo o Duque D. Gonçalo Mendes
Mesmo em Lamas um terço por quinhão
No ano de novecentos e oitenta e um
O entregou ao mosteiro do Lorvão
No ano de mil e setenta e sete
Era de Pelágio Gonçalves, o Marnel
Possível filho de Gonçalo Viegas
Militar que teve aqui grande papel
Em setecentos e onze os Agarenos
Atacaram com violentas fúrias
Vencem a batalha de Covadonga
E vêm formar o seu reino nas Astúrias
E galgando a Península Ibérica
Arrasando igrejas, praticando o mal
Atacam Recardães, Travassô e Lamas
E a igreja de Aguada, no Passal
Cercado de muralhas já seculares
Era tão lindo o Marnel e tão mimoso
Que tão encantado o autor luso épico
Lhe veio a chamar "Castro Formoso"
Até mesmo o D. Pedro das Linhagens
Que em Brunhido viveu no seu Paçô
Nos fala do Marnel nos seus escritos
Por ser terra que bastante admirou
O Marnel com seus outeiros verdejantes
Que um rio faz questão de vir beijar
Tem mesmo a norte terras de Mesão Frio
Que nome a Albergaria vieram dar
A igreja de Santa Maria de Lamas
Que pelos Agarenos foi arrasada
É reconstruída em mil cento e setenta
Pelo Bispo de Coimbra foi sagrada
Era em Roma de basílica apelidada
Pelas grandes riquezas que ela continha
Como as relíquias do sepulcro de Cristo
De S. Sebastião e Santa Marinha
Ainda as de Gordiano e Apímaco
Também do sepulcro de Santa Maria
Os do mártir Felicíssimo e Agapito
Tudo isto a igreja enriquecia
Emínio era uma extensa diocese
E muitas terras faziam parte dela
Como as de Coimbra, Seia e Vouga
E ainda a acastelada de Penela
As vias romanas de Plínio faladas
Que por esse grande povo foram feitas
Deixam marcas bem patentes no Reigoso
E nos marcos milenários das Benfeitas
A capelinha do Espírito Santo
Onde o povo vai rezar com devoção
Na presença Celta ou talvez romana
Já se praticava ali culto pagão
As relíquias de Gordiano e Apímaco
Que o povo de Lamas quis ceder
Deram início à igreja de Santa Cruz
Que D. Afonso Henriques mandou fazer
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Os Lemos da Trofa
Eram de origem galega os Lemos
Que ao deixarem sua terra natal
Trocaram sua pátria, deixaram seus bens
Para virem radicar-se em Portugal
Porém, foi Gil ou Giral Martins de Lemos
Que em terra lusa fez seu historial
Ajudando sempre o Mestre de Avis
Que mais tarde foi Rei de Portugal
A sua mulher Berengueira Anes
Foi a mãe de um grande mareante
Gomes Martins de Lemos, grande fidalgo
Que teve por África papel importante
Acompanhou D. João primeiro a Ceuta
E lutou sempre com ele em tal andança
Foi ainda o aio de D. Afonso
Que foi senhor da casa de Bragança
Pela sua coragem e valentia
Foi pelo Rei D. João recompensado
Nomeou-o membro do Conselho Régio
E fez dele o fidalgo mais respeitado
Gomes Martins de Lemos, grande senhor
Com Mécia Vasques de Góis casou
Era neta de Estêvão Vasques de Góis
Que de Lisboa era alcaide e a governou
Desse casamento outros Lemos nasceram
Que conseguem acumular prestígio e bens
Sendo entre outros Fernão Gomes de Lemos
E Afonso, o prior de Guimarães
Fernão Gomes de Lemos, homem valente
Foi um fidalgo muito poderoso
E genro de Vasco Martins da Cunha
Que foi nobre e senhor de Lanhoso
Um outro filho foi também notável
Gomes Martins de Lemos, homem do mar
Esteve com seu irmão lutando em Ceuta
Onde ambos se conseguem destacar
Este segundo Gomes Martins de Lemos
Foi também um membro da Casa Real
Ainda no tempo de Afonso V
O Africano e Rei de Portugal
Pelo seu destaque nas campanhas de África
Onde lutou com coragem e vontade
D. Afonso fê-lo senhor da Trofa
Com jurisdição de juro e herdade
Ainda na batalha da Alfarrobeira
Em lutas violentas e renhidas
Ajudou a triunfar o Infante Henrique
Sobre D. Pedro, o das sete partidas
Reforçou Afonso quinto suas benesses
E Gomes de Lemos foi recompensado
Com o senhorio das terras doadas
E da Igreja da Trofa, o padroado
Era seu titular o infante Afonso
Quando de senhorio teve mudança
O Padroado da Igreja da Trofa
Que pertenceu à Casa de Bragança
Gomes de Lemos nas conquistas de África
Veio a ter do Rei mais compensações
Sendo-lhe doadas as terras de Álvaro
E Pampilhosa e suas jurisdições
Sua mulher Maria de Azevedo
Herdeira do fidalgo Álvaro Meira
Faz transitar o senhorio de Jales
Para o senhor da Trofa e companheira
Morreu já cansado este fidalgo
Depois de uma vida inteira a lutar
Foi em mil quatrocentos e noventa
Como reza a memória tumular
Do seu casamento nasceram seis filhos
Sendo um deles homem de muito valor
O fidalgo João Gomes de Lemos
Que da Trofa foi o segundo senhor
Confirma D. Manuel terras da Trofa
Ao Herdeiro da Família valorosa
Fazendo-o ainda senhor de Jales
Das terras de Álvaro e Pampilhosa
Ele casou com Violante de Sequeira
Colaça da Infanta D. Joana
Que foi filha de D. Afonso quinto
E por Aveiro deixara tanta fama
Vieram a nascer deles oito filhos
Todos eles lutadores e homens do mar
Exercendo altos cargos administrativos
Por essas longas terras do ultramar
E todos eles muito se distinguiram
Na gesta da Índia como mareantes
Sacrificando até sua própria vida
Por esses mares tenebrosos e distantes
Fernão Gomes de Lemos foi navegante
Pôs a sua vida em risco muitas vezes
Servindo Albuquerque e Lopo Soares
E ainda o grande Henrique de Menezes
Participou na tomada de Malaca
E esteve no ataque a Benastarim
Dominou o Mar vermelho até Adem
Com grandes lutas e pelejas sem fim
António de Lemos foi homem do Mar
Lutou com bravura, alma e coração
Escolhido a defender Lopo de Brito
Conseguiu repor a ordem no Ceilão
Incumbido de enfrentar o mar Vermelho,
Foi um capitão de grande génio e brio
Demonstrando coragem e valentia
Numa armada que dirigiu Diu
Também no oriente Martins de Lemos
Sempre ao lado de Simão de Menezes
Perdeu a vida por ser morto pelos mouros
Quando defendia outros portugueses
Grande fidalgo Francisco de Lemos
Regista no oriente notáveis façanhas
Casou com D. Catarina de Ataíde
Que era filha de João de Mascarenhas
Catarina de Ataíde, linda mulher
Envolveu o sábio luso em paixões
Morreu nova, sem filhos e era apontada
Como uma das Natércias de Camões
Simão de Lemos foi também mareante
Honrando tantos Lemos Gente sábia
Foi capitão de um barco e foi valente
Na armada que dominou o mar da Arábia
Foi seu filho terceiro senhor da Trofa
Duarte de Lemos o aventureiro
Que foi o mais importante dos Lemos
E o mais conhecido no mundo inteiro
Duarte de Lemos foi o maior fidalgo
Destes Lemos que honraram a nação
Trabalhou para ela cinquenta anos
E foi autor da Capela do Panteão
O jovem fidalgo só com vinte anos
Como capitão do barco Santa Cruz
Veio a fazer parte de uma grande armada
Que seu tio Jorge de Aguiar conduz
Quando tomaram rumo ao oriente
Uma grande tempestade lhes surgiu
E com o desaparecimento de seu tio
Foi Duarte que a frota dirigiu
Acompanhado por Vasco da Silveira
E de João Gaia, piloto afoito,
Conseguiram chegar a Moçambique
Precisamente a dezanove do oito
Com a sua chegada a esta terra
Depois de enfrentar tormentas e lutar
Estava aberto o caminho da glória
À morte do tio, Jorge de Aguiar
Lemos partiu depois para Melinde
Com o fim de assentar uma feitoria
Para deter o muito contrabando
Que por Angola e Moçambique seguia
Deixou a feitoria que criara
E veio a Moçambique invernar
À espera de tempo de feição
Para sua viagem retomar
Seguiu sua viagem por Melinde
E fez uma visita à Quilôa
Aproveitando para recolher impostos
Pertencentes à nossa lusa coroa
Dominou os mares da Etiópia, Arábia e Pérsia
Fazendo por ali importante escala
Conseguindo obter as jurisdições
Que se estendiam de Cambaia a Sofala
Em vinte e um de Março Duarte de Lemos
Estava envolvido numa festa boa
Era a posse do herói Francisco Pereira
Da importante capitania de Quilôa
Em seguida visitou Sorocotá
A Pérsia e várias ilhas de Ormuz
Ainda Monfia e ilha de Zanzibar
Conduzindo sempre o barco Santa Cruz
Apresentou-se a D. Francisco d’Almeida
Nessa altura presente em Cananor
Sendo compensado pelo Vice-Rei
Pelo seu trabalho, pelo seu labor
Tomou a feitoria de Melinde
Quando a pequena esquadra ali chegou
Preparando-se para seguir nova viagem
E pelas costas da Índia navegou
Afonso de Albuquerque tinha um projecto
Mas que Duarte de Lemos recusou
Era a tentativa de conquistar Goa
Empresa em que o fidalgo não entrou
Dominou os mares com grande actividade
Era um fidalgo novo mas arrogante
E até ao próprio Afonso de Albuquerque
Lhe criou problemas a todo o instante
Por tal motivo o governador
Que também foi muito duro e cruel
Lhe ordenou que regressasse ao reino
Por despacho de El Rei D. Manuel
Pouco tempo se manteve na Trofa
E voltando ao serviço da Coroa
No ano de mil quinhentos e doze
Chegava Lemos novamente a Goa
Voltava à Índia o bravo fidalgo
Para exercer ali alta função
Foi nomeado Tenadar de Panjim
E ainda para cargo de escrivão
Seu casamento com mulher nativa
Filha de um mercador influente
Foi apadrinhado pelo governador
E realizado em Goa, no oriente
Como prenda, Afonso de Albuquerque
Embora com dinheiros oficiais
Entregou ao escrivão Duarte de Lemos
A importância de seiscentos mil reais
Foi um homem de valor no oriente
E por Albuquerque muito considerado
E até pelo Rei D. João Terceiro
Era um fidalgo muito respeitado
Nomeou-o um dia o Rei D. João
Por capitão duma armada tão pomposa
Para transportar num forte galeão
O eleito Papa Cardeal de Tortosa
O grande galeão partia de Espanha
Com mais sete barcos a seu lado
Transportando a nobre comitiva
Desse cardeal eleito e venerado
Entrou sem festa em Roma o Cardeal
Quis ser humilde, era assim a sua fé
Renunciando a esta pomposa festa
Adriano, o novo Papa foi a pé
Por tal motivo o Rei D. João Terceiro
Vendo por terra esse seu empenho
Decidiu entregar ao novo Papa
A bela relíquia do sagrado Lenho
Regressa à pátria em quinhentos e treze
Devendo passar o seu tempo mais belo
Para vir efectuar o seu casamento
Com sua amada Joana de Melo
Seria o seu casamento verdadeiro
Que o primeiro não teve qualquer valor
Havia apenas jogo de interesses
Procurando dinheiro e não amor
Sua esposa era uma linda mulher
Filha de Álvaro Nogueira de Brito
E de sua mulher Isabel Pacheco
Que era filha de um mercador rico
Este mercador era João Vaz Colim
Amo a D. João segundo dedicado
Tinha nele toda a confiança o Rei
Era um homem de valor e respeitado
Foi no ano de mil quinhentos e treze
Que fez a terceira viagem em comissão
Na encosta de Moçambique, em Sofala
Exercendo ainda o cargo de escrivão
Nas encostas de Meca e Arábia
Onde uma esquadra capitaneou
Já vencia duzentos mil reais
E com isto riqueza angariou
No ano de mil quinhentos e quinze
Com o cargo de escrivão em Sofala
Ganhava aí dezasseis mil reais
Mas que passados dois anos deixava
Em mil quinhentos e dezassete
Entregou a Sebastião Rodriguez
O cargo de escrivão que ocupava
E voltou ao reino mais uma vez
Regressou ainda nesse mesmo ano
Deixando os mares e terras do Industão
Voltando mais uma vez à sua pátria
Ao acabar a terceira comissão
Com a morte de seu pai, Duarte Lemos
Veio a ter do mesmo herança valorosa
Confirmada pelo Rei D. João Terceiro
Terras de Jales, Trofa e Pampilhosa
Sua vivência constante com o Rei
Seu génio de valentia e coragem
Faziam dele um fidalgo importante
De grande valor e pura linhagem
A partir de quinhentos e dezoito
E até à morte de sua mulher
Foi o maior período que pela Trofa
O fidalgo se conseguiu manter
Este Lemos, terceiro senhor da Trofa
Depois do paço que herdou restaurar
Lembrou-se de construir uma capela
Onde a sua família fosse orar
Por volta de quinhentos e vinte e três
Já o templo estava concluído
Apontado o maior empreendimento
Pelo Duarte de Lemos conseguido
Com a morte de Joana de Melo
Esposa por ele tanto estimada
Vem a capela a sofrer alterações
Compatíveis com a fama alcançada
A capela foi toda remodelada
Com muita arte e muita perfeição
Constituindo uma obra primorosa
Do então renascimento coimbrão
Tem seis metros e setenta de comprido
E cinco e meio apenas de largura
É denominado o Panteão dos Lemos
Essa linda obra d’ arte que ainda dura
Diogo de Castilho, arquitecto régio
Que na Igreja de Santa Cruz trabalhou
Devia ter sido o empreiteiro
Que a importante obra edificou
O fidalgo em contacto com a corte
Que os Jerónimos em obras presenciou
Conheceu Diogo e João de Castilho
Que o seu trabalho muito influenciou
A escultura da estátua oratória
Cuja fama já chegou a toda a parte,
É atribuída a um grande mestre
O escultor quinhentista Hodarte
Deve-se a um grande génio quinhentista
Toda a obra artística do Panteão
Que trabalhou na Igreja de Santa Cruz
E que se chamava João de Ruão
Este belo artista do renascimento
Que deixou bom trabalho em luso solo
Devia ter esculpido S. Salvador
E a Virgem com o Menino ao colo
Pelo seu trabalho muito destacado
Sempre ao serviço do Rei de Portugal
São-lhe cedidas as terras de seu pai
Mas confirmadas pelo poder real
D. Manuel fê-lo senhor do rio Vouga
Atribui-lhe poderes por concessão
Cede-lhe direito de cobrar portagem
A todos os barcos com carregação
Na extensão de algumas sete milhas
Que se estendem do Vouga até ao mar
Sem a licença desse grande fidalgo
Não se podia armar redes nem pescar
Com a morte de Joana de Melo
A febre de conquista não parou
O aventureiro Duarte de Lemos
Com destino à Guiné rumou
Duarte de Lemos foi um estratega
O tráfego da Guiné controlava
Também o comércio daquela ilha
Onde bastante lucro assim acumulava
O muito dinheiro ali arrecadado
E que ao aventureiro vinha à mão
Ia servindo para custear
O empreendimento do Panteão
Desenvolveu ali um bom trabalho
Com as reformas e melhoramentos
Exercendo enorme actividade
Nos primeiros anos de quinhentos
Ao ver São Tomé em tal crescimento
Sendo à Igreja também devotado
Veio a conseguir ali naquela ilha
Formar o seu primeiro bispado
Era lá que dava apoio às armadas
Controlava todo o comércio costeiro
Começava com a indústria do açúcar
Continuando a ganhar dinheiro
Pelos anos da década de quarenta
A Guiné movimentava muita gente
Com a presença de escravos recrutados
E degredados idos do continente
Entretanto já navegantes de Aveiro
Punham seu génio aventureiro à prova
Rumando à captura do bacalhau
Nos frios mares do norte na Terra Nova
Aveiro tinha uma frota valente
Com os melhores barcos ao nível de então
Eram estimados em cento e meio
E andavam sempre em grande agitação
Este negócio chorudo concerteza
Não escaparia ao grande aventureiro
Já demais que tinha boas relações
Com o navegante duque de Aveiro
Por ordem de El Rei D. João Terceiro
Para exercer no Brasil alta função
Fez partir Martins Afonso de Sousa
Com caravelas, naus e um galeão
Levava quinhentos homens a bordo
Com o fim de aquela terra explorar
rocurando desenvolver a agricultura
E a indústria do açúcar movimentar
Quando Martins Afonso volta ao reino
Era um homem feliz e cumpridor
onseguindo executar integralmente
O que lhe incumbiu o Rei seu senhor
Estava na ideia de D. João Terceiro
Converter a costa em capitanias
tribuídas a doze donatários
Com todos os poderes e regalias
Lemos navegou a costa brasileira
Durante alguns anos sempre a lutar
Ajudou Francisco Pereira Coutinho
Contra índios que se andavam a revoltar
Da capitania de Todos os Santos
Sendo Francisco Pereira donatário
Vem Lemos com sua gente socorrer Vasco
Gesto de um homem forte e solidário.
Por ajudar Vasco Fernandes Coutinho
Assegurar o seu rico património
O donatário do Espírito Santo
Cede a Lemos a Vila de Santo António
Depois de Lemos enfrentar os Aimorés
Com a sua força e autoridade
As férteis terras do Espírito Santo
Voltam novamente à normalidade
A cidade começava a florescer
As plantações entravam em movimento
Especialmente a cana-de-açúcar
O principal objectivo do momento
Quatro engenhos para o fabrico do açúcar
Entravam numa fase de construção
Realizando-se assim os grandes planos
Que para Lemos eram uma ambição
Veio Lemos ao reino novamente
Pedir ao Rei a sua confirmação
Daquela ilha de Santo António
Recebida há anos por doação
Veio a ceder o Rei D. João Terceiro
Em mil quinhentos e quarenta e nove
Na paga do seu brioso trabalho
Em todas as reformas que promove
Destinada ao Brasil, D. João Terceiro
Envia de Lisboa mais uma armada
Fazendo parte dela o barco Ajuda
Por Duarte de Lemos comandada
Nessa embarcação seguiu para o Brasil
Onde tanto de notabilizou
Era o jesuíta Padre Manuel da Nóbrega
Que a cidade de S. Paulo fundou
Desembarcaram no Brasil em Pereira
Povoação que nasceu à beira-mar
Onde construíram logo uma capela
Para a família ali poder rezar
Na nau Ajuda que era comandada
Por Duarte de Lemos seu capitão
Seguia a imagem de Nossa Senhora da Ajuda
Transportada com carinho e devoção
Tomé de Sousa foi capitão da armada
E das terras do Brasil, Governador
Partindo para o reino em trinta e dois
Esse grande aventureiro de valor
Entregou o cargo de capitão mor
Numa doação feita a Pêro de Góis
Donatário da ilha de São Tomé
No ano de quinhentos e trinta e dois
Em quinhentos e quarenta e seis
Estava Lemos em Porto Seguro
Na capitania de Campo Tourinho
Sempre com o vigor de um homem duro
Parte Lemos para a pátria novamente
Para descansar um pouco e repousar
Registando a sua presença na Trofa
Onde não se conseguia acomodar
Pouco tempo este fidalgo esteve ali
Preocupado com projectos em curso
Resolveu regressar imediatamente
Para fazer seus negócios no percurso
Lemos e Pêro regressam ao Brasil
Constroem engenhos de açúcar, celeiros
Reforçam reformas administrativas
E também constroem bons estaleiros
Deviam ter passado por São Tomé
Para juntar cana-de-açúcar e escravos
E ainda alguns técnicos daquele fabrico
Para trabalhar com engenhos já montados
Campo Tourinho entretanto é preso
Por abusos de poder decerto, cremos
Passando então sua capitania
Para o fidalgo Duarte de Lemos
Em mil quinhentos e quarenta e cinco
O primeiro açúcar do Brasil saía
A bordo do grande navio Braz Teles
Que o continente assim abastecia
O açúcar tão precioso para o reino
Fabricado no Brasil era o primeiro
Foi mencionado por Ambrósio Meira
Numa carta ao Rei D. João Terceiro
Tomé de Sousa Governador do Brasil
Ao reconhecer um homem forte e duro
Logo confiou a Duarte de Lemos
A capitania de Porto Seguro
Entretanto o herói e grande fidalgo
A quem a Corte para sempre ficou grata
Sonhava penetrar no interior
E ali explorar o Rio da Prata
Pr’ó Brasil seguem mais quatro Jesuítas
Dos quais, dois o fidalgo conhecia
Era Padre Manuel Paiva que era de Águeda
E Afonso Braz de Arcos de Anadia
O missionário de Arcos de Anadia
Arquitecto genial e de perfil
Na construção de igrejas e colégios
Trabalhou sessenta anos no Brasil
Deixou trabalho no Espírito Santo
Em São Paulo e no Rio de Janeiro
Foi padre, arquitecto, missionário
Pregador, instrutor e carpinteiro
Duarte de Lemos e Manuel Paiva
Com o fim de desenvolver a educação
Constroem o colégio de São Tiago
No melhor local daquela região
Morreu em Vitória este missionário
Terra onde teve notável acção
Foi o maioral do Espírito Santo
Onde esteve ligado à educação
Lemos regressa mais uma vez à pátria
Talvez com vida fosse a última vez
Os muitas anos de trabalho e luta
Iam desgastando a sua robustez
Já cansado o fidalgo volta ao Brasil
Para assistir a grande celebração
Era o casamento do seu afilhado
Filho do chefe gentílico de então
"Gato Grande" era o nome daquele chefe
Com quem boas relações sempre tivemos
Chegando Lemos a baptizar-lhe um filho
Dando-lhe o nome de Sebastião de Lemos
A vida do herói estava no seu fim
Fase negativa desse fidalgo afoito
Tendo sido arrebatado pela morte
em mil quinhentos e cinquenta e oito
Não se sabe ao certo onde Lemos morreu
Se na sua terra mãe ou em Vitória
Sabe-se que jaz ali no Panteão
Obra que imortaliza sua memória
Desapareceu assim um grande herói
Fidalgo da Trofa que tanto lutou
E como crente na imortalidade
Para sempre nela o fidalgo ficou
Sucedeu-lhe João Gomes de Lemos
Mas com uma controversa sucessão
Sem a confirmação do poder real
Do então Rei de Portugal, D. João
Foi nomeado escudeiro do Rei
Pelo que boa soldada recebia
Dois mil cento e sessenta reais por mês
E um alqueire de cevada por dia
Casou com D. Leonor Pinheiro
Que era irmã do Bispo de Viseu
Mas depois de obter dela dois herdeiros
Esta senhora muito cedo morreu
Sua segunda mulher, Isabel Távora
Era viúva de Jorge Maldonado
O fidalgo que já tinha falecido
Senhor da quinta de Niza e Morgado
Duarte de Lemos foi o seu herdeiro
E da Trofa veio a ser quinto senhor
Confirmado pelo Rei D. Sebastião
Pelo respeito a avô, ao seu valor
Ele protegeu a câmara de Aveiro
Da entrada da barra foi seu defensor
Ajudou sempre António Prior do Crato
Sendo a Filipe segundo opositor
Era tão grande o seu ódio ao Rei Filipe
Que para evitar homenagem prestada
Para se não cruzar por ele na ponte
Atirando-se ao Mondego com a montada
Um outro episódio se verificou
Quando um dia andava a lavrar
E os esbirros espanhóis lhe perguntaram
Onde o fidalgo podiam encontrar
Duarte de Lemos ordenou ao moço
Para lhe tirar as vacas do arado
E levantando o timão com as mão
Lhe apontou o caminho indicado
Quando viram aquele gesto, os emissários
Viraram as costas comentando algo
Se aquele senhor tinha assim tanta força
O que lhes viria a fazer o fidalgo
Ele casou com D. Maria de Távora
E doze herdeiros vieram a nascer
Sendo o mais velho João Gomes de Lemos
Mas que bem cedo veio a falecer
Morreu em mil seiscentos e dezasseis
Precisamente a onze de Fevereiro
Este homem fiel a D. Sebastião
E de Portugal amigo verdadeiro
Sucedeu-lhe Diogo Gomes de Lemos
Que veio a ser da Trofa sexto senhor
Casou com D. Mariana Coutinho
Sem conseguir filhos do seu amor
Mais tarde com D. Guiomar de Almeida
Em segundas núpcias veio a casar
De quem vieram a nascer três filhos
E mais dois vieram a legitimar
João Gomes de Lemos foi sucessor
E como era um padre Jesuíta
Veio o Papa a dispensá-lo do seu voto
E sétimo senhor da Trofa fica
A confirmação foi em cinquenta e dois
Pelo Rei D. João Quarto, o restaurador
Possuidor de Jales e Pampilhosa
E da igreja também o seu senhor
Casou com D. Madalena de Melo
Terminando aqui a sua geração
Por deste casal não haver herdeiros
Para dar aos Lemos continuação
Por motivo da morte de seu irmão
Jerónima de Lemos que era solteira
Ficou na posse da casa de seu pai
Por ser ela apenas a sua herdeira
Ao casar com Jerónimo de Carvalho
Dos Carvalhos o seu herdeiro varão
É-lhe cedido o senhorio da Trofa
Confirmado por Real Confirmação
O segundo filho deste casamento
Que fez parte de uma família briosa
É-lhe confirmado pelo Rei D. Pedro,
O senhorio da Trofa e Lamarosa
Foi em mil seiscentos e noventa e nove
Pelo Rei D. Pedro a confirmação
Por terem morrido dele três irmãos
Lutando nas guerras da restauração
Foi a Bernardo de Carvalho e Lemos
A cedência real por duas vidas
Do senhorio da Trofa, por mercê
Dessas vidas dos seus irmãos perdidas
Enorme era esta família dos Lemos
Que tanto lutou e dominou os mares
Como Sequeiras, Brites, Nogueiras
Da casa de Góis, Melos e Aguiares
Ainda nos aparecem os Pachecos
Sendo com Joana de Lemos um casado
Dela morre um irmão solteiro na Índia
Outro de Duarte de Lemos foi cunhado
No princípio do século dezassete
Uma grande peste o Vouga assolou
Em Covelas dizimou a população
Com excepção de algum que a deixou
Com o abandono da igreja matriz
Do malogrado povo que ali rezou
Esta veio a cair em degradação
Quando aquela gente a abandonou
Foi então que o pobre povo da Trofa
Que mais não tinha ali que uma capela
Pediu ao donatário daquela ermida
Que deixasse praticar o culto nela
Mesmo sem poder este povo cristão
Com a ideia de uma igreja construir
Ao grande fidalgo senhor da Trofa
Terreno para a mesma foi pedir
Pediram terreno ao donatário
Luís de Carvalho que era barão
No ano de mil setecentos e cinco
Para começar ali a construção
Cede-lhe então o grande donatário
E a igreja foi sonho realizado
Ficando o titular da casa de Lemos
Sempre com o direito a padroado
Esta cedência veio a confirmar-se
Por D. Pedro que era o Rei de então
Ao filho de Bernardo Carvalho Lemos
Luís de Carvalho, seu herdeiro varão
http://www.blogger.com/img/blank.gif
Este direito à casa da Trofa
Que o Rei D. João Terceiro tinha dado
Em mil oitocentos e setenta e cinco
Tinha ainda direito a padroado
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
Que ao deixarem sua terra natal
Trocaram sua pátria, deixaram seus bens
Para virem radicar-se em Portugal
Porém, foi Gil ou Giral Martins de Lemos
Que em terra lusa fez seu historial
Ajudando sempre o Mestre de Avis
Que mais tarde foi Rei de Portugal
A sua mulher Berengueira Anes
Foi a mãe de um grande mareante
Gomes Martins de Lemos, grande fidalgo
Que teve por África papel importante
Acompanhou D. João primeiro a Ceuta
E lutou sempre com ele em tal andança
Foi ainda o aio de D. Afonso
Que foi senhor da casa de Bragança
Pela sua coragem e valentia
Foi pelo Rei D. João recompensado
Nomeou-o membro do Conselho Régio
E fez dele o fidalgo mais respeitado
Gomes Martins de Lemos, grande senhor
Com Mécia Vasques de Góis casou
Era neta de Estêvão Vasques de Góis
Que de Lisboa era alcaide e a governou
Desse casamento outros Lemos nasceram
Que conseguem acumular prestígio e bens
Sendo entre outros Fernão Gomes de Lemos
E Afonso, o prior de Guimarães
Fernão Gomes de Lemos, homem valente
Foi um fidalgo muito poderoso
E genro de Vasco Martins da Cunha
Que foi nobre e senhor de Lanhoso
Um outro filho foi também notável
Gomes Martins de Lemos, homem do mar
Esteve com seu irmão lutando em Ceuta
Onde ambos se conseguem destacar
Este segundo Gomes Martins de Lemos
Foi também um membro da Casa Real
Ainda no tempo de Afonso V
O Africano e Rei de Portugal
Pelo seu destaque nas campanhas de África
Onde lutou com coragem e vontade
D. Afonso fê-lo senhor da Trofa
Com jurisdição de juro e herdade
Ainda na batalha da Alfarrobeira
Em lutas violentas e renhidas
Ajudou a triunfar o Infante Henrique
Sobre D. Pedro, o das sete partidas
Reforçou Afonso quinto suas benesses
E Gomes de Lemos foi recompensado
Com o senhorio das terras doadas
E da Igreja da Trofa, o padroado
Era seu titular o infante Afonso
Quando de senhorio teve mudança
O Padroado da Igreja da Trofa
Que pertenceu à Casa de Bragança
Gomes de Lemos nas conquistas de África
Veio a ter do Rei mais compensações
Sendo-lhe doadas as terras de Álvaro
E Pampilhosa e suas jurisdições
Sua mulher Maria de Azevedo
Herdeira do fidalgo Álvaro Meira
Faz transitar o senhorio de Jales
Para o senhor da Trofa e companheira
Morreu já cansado este fidalgo
Depois de uma vida inteira a lutar
Foi em mil quatrocentos e noventa
Como reza a memória tumular
Do seu casamento nasceram seis filhos
Sendo um deles homem de muito valor
O fidalgo João Gomes de Lemos
Que da Trofa foi o segundo senhor
Confirma D. Manuel terras da Trofa
Ao Herdeiro da Família valorosa
Fazendo-o ainda senhor de Jales
Das terras de Álvaro e Pampilhosa
Ele casou com Violante de Sequeira
Colaça da Infanta D. Joana
Que foi filha de D. Afonso quinto
E por Aveiro deixara tanta fama
Vieram a nascer deles oito filhos
Todos eles lutadores e homens do mar
Exercendo altos cargos administrativos
Por essas longas terras do ultramar
E todos eles muito se distinguiram
Na gesta da Índia como mareantes
Sacrificando até sua própria vida
Por esses mares tenebrosos e distantes
Fernão Gomes de Lemos foi navegante
Pôs a sua vida em risco muitas vezes
Servindo Albuquerque e Lopo Soares
E ainda o grande Henrique de Menezes
Participou na tomada de Malaca
E esteve no ataque a Benastarim
Dominou o Mar vermelho até Adem
Com grandes lutas e pelejas sem fim
António de Lemos foi homem do Mar
Lutou com bravura, alma e coração
Escolhido a defender Lopo de Brito
Conseguiu repor a ordem no Ceilão
Incumbido de enfrentar o mar Vermelho,
Foi um capitão de grande génio e brio
Demonstrando coragem e valentia
Numa armada que dirigiu Diu
Também no oriente Martins de Lemos
Sempre ao lado de Simão de Menezes
Perdeu a vida por ser morto pelos mouros
Quando defendia outros portugueses
Grande fidalgo Francisco de Lemos
Regista no oriente notáveis façanhas
Casou com D. Catarina de Ataíde
Que era filha de João de Mascarenhas
Catarina de Ataíde, linda mulher
Envolveu o sábio luso em paixões
Morreu nova, sem filhos e era apontada
Como uma das Natércias de Camões
Simão de Lemos foi também mareante
Honrando tantos Lemos Gente sábia
Foi capitão de um barco e foi valente
Na armada que dominou o mar da Arábia
Foi seu filho terceiro senhor da Trofa
Duarte de Lemos o aventureiro
Que foi o mais importante dos Lemos
E o mais conhecido no mundo inteiro
Duarte de Lemos foi o maior fidalgo
Destes Lemos que honraram a nação
Trabalhou para ela cinquenta anos
E foi autor da Capela do Panteão
O jovem fidalgo só com vinte anos
Como capitão do barco Santa Cruz
Veio a fazer parte de uma grande armada
Que seu tio Jorge de Aguiar conduz
Quando tomaram rumo ao oriente
Uma grande tempestade lhes surgiu
E com o desaparecimento de seu tio
Foi Duarte que a frota dirigiu
Acompanhado por Vasco da Silveira
E de João Gaia, piloto afoito,
Conseguiram chegar a Moçambique
Precisamente a dezanove do oito
Com a sua chegada a esta terra
Depois de enfrentar tormentas e lutar
Estava aberto o caminho da glória
À morte do tio, Jorge de Aguiar
Lemos partiu depois para Melinde
Com o fim de assentar uma feitoria
Para deter o muito contrabando
Que por Angola e Moçambique seguia
Deixou a feitoria que criara
E veio a Moçambique invernar
À espera de tempo de feição
Para sua viagem retomar
Seguiu sua viagem por Melinde
E fez uma visita à Quilôa
Aproveitando para recolher impostos
Pertencentes à nossa lusa coroa
Dominou os mares da Etiópia, Arábia e Pérsia
Fazendo por ali importante escala
Conseguindo obter as jurisdições
Que se estendiam de Cambaia a Sofala
Em vinte e um de Março Duarte de Lemos
Estava envolvido numa festa boa
Era a posse do herói Francisco Pereira
Da importante capitania de Quilôa
Em seguida visitou Sorocotá
A Pérsia e várias ilhas de Ormuz
Ainda Monfia e ilha de Zanzibar
Conduzindo sempre o barco Santa Cruz
Apresentou-se a D. Francisco d’Almeida
Nessa altura presente em Cananor
Sendo compensado pelo Vice-Rei
Pelo seu trabalho, pelo seu labor
Tomou a feitoria de Melinde
Quando a pequena esquadra ali chegou
Preparando-se para seguir nova viagem
E pelas costas da Índia navegou
Afonso de Albuquerque tinha um projecto
Mas que Duarte de Lemos recusou
Era a tentativa de conquistar Goa
Empresa em que o fidalgo não entrou
Dominou os mares com grande actividade
Era um fidalgo novo mas arrogante
E até ao próprio Afonso de Albuquerque
Lhe criou problemas a todo o instante
Por tal motivo o governador
Que também foi muito duro e cruel
Lhe ordenou que regressasse ao reino
Por despacho de El Rei D. Manuel
Pouco tempo se manteve na Trofa
E voltando ao serviço da Coroa
No ano de mil quinhentos e doze
Chegava Lemos novamente a Goa
Voltava à Índia o bravo fidalgo
Para exercer ali alta função
Foi nomeado Tenadar de Panjim
E ainda para cargo de escrivão
Seu casamento com mulher nativa
Filha de um mercador influente
Foi apadrinhado pelo governador
E realizado em Goa, no oriente
Como prenda, Afonso de Albuquerque
Embora com dinheiros oficiais
Entregou ao escrivão Duarte de Lemos
A importância de seiscentos mil reais
Foi um homem de valor no oriente
E por Albuquerque muito considerado
E até pelo Rei D. João Terceiro
Era um fidalgo muito respeitado
Nomeou-o um dia o Rei D. João
Por capitão duma armada tão pomposa
Para transportar num forte galeão
O eleito Papa Cardeal de Tortosa
O grande galeão partia de Espanha
Com mais sete barcos a seu lado
Transportando a nobre comitiva
Desse cardeal eleito e venerado
Entrou sem festa em Roma o Cardeal
Quis ser humilde, era assim a sua fé
Renunciando a esta pomposa festa
Adriano, o novo Papa foi a pé
Por tal motivo o Rei D. João Terceiro
Vendo por terra esse seu empenho
Decidiu entregar ao novo Papa
A bela relíquia do sagrado Lenho
Regressa à pátria em quinhentos e treze
Devendo passar o seu tempo mais belo
Para vir efectuar o seu casamento
Com sua amada Joana de Melo
Seria o seu casamento verdadeiro
Que o primeiro não teve qualquer valor
Havia apenas jogo de interesses
Procurando dinheiro e não amor
Sua esposa era uma linda mulher
Filha de Álvaro Nogueira de Brito
E de sua mulher Isabel Pacheco
Que era filha de um mercador rico
Este mercador era João Vaz Colim
Amo a D. João segundo dedicado
Tinha nele toda a confiança o Rei
Era um homem de valor e respeitado
Foi no ano de mil quinhentos e treze
Que fez a terceira viagem em comissão
Na encosta de Moçambique, em Sofala
Exercendo ainda o cargo de escrivão
Nas encostas de Meca e Arábia
Onde uma esquadra capitaneou
Já vencia duzentos mil reais
E com isto riqueza angariou
No ano de mil quinhentos e quinze
Com o cargo de escrivão em Sofala
Ganhava aí dezasseis mil reais
Mas que passados dois anos deixava
Em mil quinhentos e dezassete
Entregou a Sebastião Rodriguez
O cargo de escrivão que ocupava
E voltou ao reino mais uma vez
Regressou ainda nesse mesmo ano
Deixando os mares e terras do Industão
Voltando mais uma vez à sua pátria
Ao acabar a terceira comissão
Com a morte de seu pai, Duarte Lemos
Veio a ter do mesmo herança valorosa
Confirmada pelo Rei D. João Terceiro
Terras de Jales, Trofa e Pampilhosa
Sua vivência constante com o Rei
Seu génio de valentia e coragem
Faziam dele um fidalgo importante
De grande valor e pura linhagem
A partir de quinhentos e dezoito
E até à morte de sua mulher
Foi o maior período que pela Trofa
O fidalgo se conseguiu manter
Este Lemos, terceiro senhor da Trofa
Depois do paço que herdou restaurar
Lembrou-se de construir uma capela
Onde a sua família fosse orar
Por volta de quinhentos e vinte e três
Já o templo estava concluído
Apontado o maior empreendimento
Pelo Duarte de Lemos conseguido
Com a morte de Joana de Melo
Esposa por ele tanto estimada
Vem a capela a sofrer alterações
Compatíveis com a fama alcançada
A capela foi toda remodelada
Com muita arte e muita perfeição
Constituindo uma obra primorosa
Do então renascimento coimbrão
Tem seis metros e setenta de comprido
E cinco e meio apenas de largura
É denominado o Panteão dos Lemos
Essa linda obra d’ arte que ainda dura
Diogo de Castilho, arquitecto régio
Que na Igreja de Santa Cruz trabalhou
Devia ter sido o empreiteiro
Que a importante obra edificou
O fidalgo em contacto com a corte
Que os Jerónimos em obras presenciou
Conheceu Diogo e João de Castilho
Que o seu trabalho muito influenciou
A escultura da estátua oratória
Cuja fama já chegou a toda a parte,
É atribuída a um grande mestre
O escultor quinhentista Hodarte
Deve-se a um grande génio quinhentista
Toda a obra artística do Panteão
Que trabalhou na Igreja de Santa Cruz
E que se chamava João de Ruão
Este belo artista do renascimento
Que deixou bom trabalho em luso solo
Devia ter esculpido S. Salvador
E a Virgem com o Menino ao colo
Pelo seu trabalho muito destacado
Sempre ao serviço do Rei de Portugal
São-lhe cedidas as terras de seu pai
Mas confirmadas pelo poder real
D. Manuel fê-lo senhor do rio Vouga
Atribui-lhe poderes por concessão
Cede-lhe direito de cobrar portagem
A todos os barcos com carregação
Na extensão de algumas sete milhas
Que se estendem do Vouga até ao mar
Sem a licença desse grande fidalgo
Não se podia armar redes nem pescar
Com a morte de Joana de Melo
A febre de conquista não parou
O aventureiro Duarte de Lemos
Com destino à Guiné rumou
Duarte de Lemos foi um estratega
O tráfego da Guiné controlava
Também o comércio daquela ilha
Onde bastante lucro assim acumulava
O muito dinheiro ali arrecadado
E que ao aventureiro vinha à mão
Ia servindo para custear
O empreendimento do Panteão
Desenvolveu ali um bom trabalho
Com as reformas e melhoramentos
Exercendo enorme actividade
Nos primeiros anos de quinhentos
Ao ver São Tomé em tal crescimento
Sendo à Igreja também devotado
Veio a conseguir ali naquela ilha
Formar o seu primeiro bispado
Era lá que dava apoio às armadas
Controlava todo o comércio costeiro
Começava com a indústria do açúcar
Continuando a ganhar dinheiro
Pelos anos da década de quarenta
A Guiné movimentava muita gente
Com a presença de escravos recrutados
E degredados idos do continente
Entretanto já navegantes de Aveiro
Punham seu génio aventureiro à prova
Rumando à captura do bacalhau
Nos frios mares do norte na Terra Nova
Aveiro tinha uma frota valente
Com os melhores barcos ao nível de então
Eram estimados em cento e meio
E andavam sempre em grande agitação
Este negócio chorudo concerteza
Não escaparia ao grande aventureiro
Já demais que tinha boas relações
Com o navegante duque de Aveiro
Por ordem de El Rei D. João Terceiro
Para exercer no Brasil alta função
Fez partir Martins Afonso de Sousa
Com caravelas, naus e um galeão
Levava quinhentos homens a bordo
Com o fim de aquela terra explorar
rocurando desenvolver a agricultura
E a indústria do açúcar movimentar
Quando Martins Afonso volta ao reino
Era um homem feliz e cumpridor
onseguindo executar integralmente
O que lhe incumbiu o Rei seu senhor
Estava na ideia de D. João Terceiro
Converter a costa em capitanias
tribuídas a doze donatários
Com todos os poderes e regalias
Lemos navegou a costa brasileira
Durante alguns anos sempre a lutar
Ajudou Francisco Pereira Coutinho
Contra índios que se andavam a revoltar
Da capitania de Todos os Santos
Sendo Francisco Pereira donatário
Vem Lemos com sua gente socorrer Vasco
Gesto de um homem forte e solidário.
Por ajudar Vasco Fernandes Coutinho
Assegurar o seu rico património
O donatário do Espírito Santo
Cede a Lemos a Vila de Santo António
Depois de Lemos enfrentar os Aimorés
Com a sua força e autoridade
As férteis terras do Espírito Santo
Voltam novamente à normalidade
A cidade começava a florescer
As plantações entravam em movimento
Especialmente a cana-de-açúcar
O principal objectivo do momento
Quatro engenhos para o fabrico do açúcar
Entravam numa fase de construção
Realizando-se assim os grandes planos
Que para Lemos eram uma ambição
Veio Lemos ao reino novamente
Pedir ao Rei a sua confirmação
Daquela ilha de Santo António
Recebida há anos por doação
Veio a ceder o Rei D. João Terceiro
Em mil quinhentos e quarenta e nove
Na paga do seu brioso trabalho
Em todas as reformas que promove
Destinada ao Brasil, D. João Terceiro
Envia de Lisboa mais uma armada
Fazendo parte dela o barco Ajuda
Por Duarte de Lemos comandada
Nessa embarcação seguiu para o Brasil
Onde tanto de notabilizou
Era o jesuíta Padre Manuel da Nóbrega
Que a cidade de S. Paulo fundou
Desembarcaram no Brasil em Pereira
Povoação que nasceu à beira-mar
Onde construíram logo uma capela
Para a família ali poder rezar
Na nau Ajuda que era comandada
Por Duarte de Lemos seu capitão
Seguia a imagem de Nossa Senhora da Ajuda
Transportada com carinho e devoção
Tomé de Sousa foi capitão da armada
E das terras do Brasil, Governador
Partindo para o reino em trinta e dois
Esse grande aventureiro de valor
Entregou o cargo de capitão mor
Numa doação feita a Pêro de Góis
Donatário da ilha de São Tomé
No ano de quinhentos e trinta e dois
Em quinhentos e quarenta e seis
Estava Lemos em Porto Seguro
Na capitania de Campo Tourinho
Sempre com o vigor de um homem duro
Parte Lemos para a pátria novamente
Para descansar um pouco e repousar
Registando a sua presença na Trofa
Onde não se conseguia acomodar
Pouco tempo este fidalgo esteve ali
Preocupado com projectos em curso
Resolveu regressar imediatamente
Para fazer seus negócios no percurso
Lemos e Pêro regressam ao Brasil
Constroem engenhos de açúcar, celeiros
Reforçam reformas administrativas
E também constroem bons estaleiros
Deviam ter passado por São Tomé
Para juntar cana-de-açúcar e escravos
E ainda alguns técnicos daquele fabrico
Para trabalhar com engenhos já montados
Campo Tourinho entretanto é preso
Por abusos de poder decerto, cremos
Passando então sua capitania
Para o fidalgo Duarte de Lemos
Em mil quinhentos e quarenta e cinco
O primeiro açúcar do Brasil saía
A bordo do grande navio Braz Teles
Que o continente assim abastecia
O açúcar tão precioso para o reino
Fabricado no Brasil era o primeiro
Foi mencionado por Ambrósio Meira
Numa carta ao Rei D. João Terceiro
Tomé de Sousa Governador do Brasil
Ao reconhecer um homem forte e duro
Logo confiou a Duarte de Lemos
A capitania de Porto Seguro
Entretanto o herói e grande fidalgo
A quem a Corte para sempre ficou grata
Sonhava penetrar no interior
E ali explorar o Rio da Prata
Pr’ó Brasil seguem mais quatro Jesuítas
Dos quais, dois o fidalgo conhecia
Era Padre Manuel Paiva que era de Águeda
E Afonso Braz de Arcos de Anadia
O missionário de Arcos de Anadia
Arquitecto genial e de perfil
Na construção de igrejas e colégios
Trabalhou sessenta anos no Brasil
Deixou trabalho no Espírito Santo
Em São Paulo e no Rio de Janeiro
Foi padre, arquitecto, missionário
Pregador, instrutor e carpinteiro
Duarte de Lemos e Manuel Paiva
Com o fim de desenvolver a educação
Constroem o colégio de São Tiago
No melhor local daquela região
Morreu em Vitória este missionário
Terra onde teve notável acção
Foi o maioral do Espírito Santo
Onde esteve ligado à educação
Lemos regressa mais uma vez à pátria
Talvez com vida fosse a última vez
Os muitas anos de trabalho e luta
Iam desgastando a sua robustez
Já cansado o fidalgo volta ao Brasil
Para assistir a grande celebração
Era o casamento do seu afilhado
Filho do chefe gentílico de então
"Gato Grande" era o nome daquele chefe
Com quem boas relações sempre tivemos
Chegando Lemos a baptizar-lhe um filho
Dando-lhe o nome de Sebastião de Lemos
A vida do herói estava no seu fim
Fase negativa desse fidalgo afoito
Tendo sido arrebatado pela morte
em mil quinhentos e cinquenta e oito
Não se sabe ao certo onde Lemos morreu
Se na sua terra mãe ou em Vitória
Sabe-se que jaz ali no Panteão
Obra que imortaliza sua memória
Desapareceu assim um grande herói
Fidalgo da Trofa que tanto lutou
E como crente na imortalidade
Para sempre nela o fidalgo ficou
Sucedeu-lhe João Gomes de Lemos
Mas com uma controversa sucessão
Sem a confirmação do poder real
Do então Rei de Portugal, D. João
Foi nomeado escudeiro do Rei
Pelo que boa soldada recebia
Dois mil cento e sessenta reais por mês
E um alqueire de cevada por dia
Casou com D. Leonor Pinheiro
Que era irmã do Bispo de Viseu
Mas depois de obter dela dois herdeiros
Esta senhora muito cedo morreu
Sua segunda mulher, Isabel Távora
Era viúva de Jorge Maldonado
O fidalgo que já tinha falecido
Senhor da quinta de Niza e Morgado
Duarte de Lemos foi o seu herdeiro
E da Trofa veio a ser quinto senhor
Confirmado pelo Rei D. Sebastião
Pelo respeito a avô, ao seu valor
Ele protegeu a câmara de Aveiro
Da entrada da barra foi seu defensor
Ajudou sempre António Prior do Crato
Sendo a Filipe segundo opositor
Era tão grande o seu ódio ao Rei Filipe
Que para evitar homenagem prestada
Para se não cruzar por ele na ponte
Atirando-se ao Mondego com a montada
Um outro episódio se verificou
Quando um dia andava a lavrar
E os esbirros espanhóis lhe perguntaram
Onde o fidalgo podiam encontrar
Duarte de Lemos ordenou ao moço
Para lhe tirar as vacas do arado
E levantando o timão com as mão
Lhe apontou o caminho indicado
Quando viram aquele gesto, os emissários
Viraram as costas comentando algo
Se aquele senhor tinha assim tanta força
O que lhes viria a fazer o fidalgo
Ele casou com D. Maria de Távora
E doze herdeiros vieram a nascer
Sendo o mais velho João Gomes de Lemos
Mas que bem cedo veio a falecer
Morreu em mil seiscentos e dezasseis
Precisamente a onze de Fevereiro
Este homem fiel a D. Sebastião
E de Portugal amigo verdadeiro
Sucedeu-lhe Diogo Gomes de Lemos
Que veio a ser da Trofa sexto senhor
Casou com D. Mariana Coutinho
Sem conseguir filhos do seu amor
Mais tarde com D. Guiomar de Almeida
Em segundas núpcias veio a casar
De quem vieram a nascer três filhos
E mais dois vieram a legitimar
João Gomes de Lemos foi sucessor
E como era um padre Jesuíta
Veio o Papa a dispensá-lo do seu voto
E sétimo senhor da Trofa fica
A confirmação foi em cinquenta e dois
Pelo Rei D. João Quarto, o restaurador
Possuidor de Jales e Pampilhosa
E da igreja também o seu senhor
Casou com D. Madalena de Melo
Terminando aqui a sua geração
Por deste casal não haver herdeiros
Para dar aos Lemos continuação
Por motivo da morte de seu irmão
Jerónima de Lemos que era solteira
Ficou na posse da casa de seu pai
Por ser ela apenas a sua herdeira
Ao casar com Jerónimo de Carvalho
Dos Carvalhos o seu herdeiro varão
É-lhe cedido o senhorio da Trofa
Confirmado por Real Confirmação
O segundo filho deste casamento
Que fez parte de uma família briosa
É-lhe confirmado pelo Rei D. Pedro,
O senhorio da Trofa e Lamarosa
Foi em mil seiscentos e noventa e nove
Pelo Rei D. Pedro a confirmação
Por terem morrido dele três irmãos
Lutando nas guerras da restauração
Foi a Bernardo de Carvalho e Lemos
A cedência real por duas vidas
Do senhorio da Trofa, por mercê
Dessas vidas dos seus irmãos perdidas
Enorme era esta família dos Lemos
Que tanto lutou e dominou os mares
Como Sequeiras, Brites, Nogueiras
Da casa de Góis, Melos e Aguiares
Ainda nos aparecem os Pachecos
Sendo com Joana de Lemos um casado
Dela morre um irmão solteiro na Índia
Outro de Duarte de Lemos foi cunhado
No princípio do século dezassete
Uma grande peste o Vouga assolou
Em Covelas dizimou a população
Com excepção de algum que a deixou
Com o abandono da igreja matriz
Do malogrado povo que ali rezou
Esta veio a cair em degradação
Quando aquela gente a abandonou
Foi então que o pobre povo da Trofa
Que mais não tinha ali que uma capela
Pediu ao donatário daquela ermida
Que deixasse praticar o culto nela
Mesmo sem poder este povo cristão
Com a ideia de uma igreja construir
Ao grande fidalgo senhor da Trofa
Terreno para a mesma foi pedir
Pediram terreno ao donatário
Luís de Carvalho que era barão
No ano de mil setecentos e cinco
Para começar ali a construção
Cede-lhe então o grande donatário
E a igreja foi sonho realizado
Ficando o titular da casa de Lemos
Sempre com o direito a padroado
Esta cedência veio a confirmar-se
Por D. Pedro que era o Rei de então
Ao filho de Bernardo Carvalho Lemos
Luís de Carvalho, seu herdeiro varão
http://www.blogger.com/img/blank.gif
Este direito à casa da Trofa
Que o Rei D. João Terceiro tinha dado
Em mil oitocentos e setenta e cinco
Tinha ainda direito a padroado
© Braz dos Kiwis 1996 - 1998
Subscrever:
Mensagens (Atom)